Amanhece. É hora de ouvir motoristas com camisas doadas por algum dono de boate, esperando incautos ou impetuosos turistas sexuais saírem de suas tocas aqui nestas praias sem dono.
Eles param os carros de qualquer jeito. Não há mão ou contramão, não há silêncio, também pudera, não há fiscalização. O que vale uma orla em uma cidade cheia de problemas? Mero mictório público e estacionamento matutino de táxis que aguardam o fim de encontros entre mulheres pobres ou pobres mulheres que ainda acalentam sonhos de ser amadas por seus cafetões e clientes-usuários e se entregam a estrangeiros de qualquer nível por poucos euros, dólares ou reais, tão poucos que não dariam para uma refeição ligeira no outro lado do continente. Imagino o que possam pensar desta cidade os que vêm, apenas ejaculam e voltam. Lembrarão do seu nome? Seria Fortaleza ou retirariam do nome o rt e colocariam um d?
Por outro lado, literalmente, do lado de fora da proteção estrutural do local de onde estou escrevendo, ouço pios de andorinhas. Serão pios ou cantos pios? Na sutileza do canto da andorinha há a esperança não dissipada de que o pesadelo que deixaram florescer nestas praias não prospere e a cidade retome o que foi seu, tão grosseiramente perdido.
Enquanto o canto da andorinha nos nutre de esperança, a algazarra dos motoristas insones – catadores de lixo, meninos que cheiram cola, passeios quebrados plenos de areia por conta de uma disputa judicial sem fim, bêbados, pedintes – retrata o que todos plantamos com a nossa indiferença, descaso ou, quem sabe, da corrupção institucionalizada nos órgãos licenciadores e de registros, policiais surdos, rondas que não acontecem, imprensa investigativa que ainda dorme, CPI da prostituição que deu palanque e votos, promessas não cumpridas e escolhas que não sabemos fazer, mas fazemos, sem respeito a nós mesmos e ao próximo.
JOÃO SOARES NETO,
CRONISTA
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/10/2006.

