BRASIL: A RESPOSTA DAS RAÍZES – Diário do Nordeste

Ocorrendo hoje tudo o que dizem as empresas de pesquisa, Lula será reeleito. O jornalista José Simão, de humor fino e ácido, diz que será “réu-eleito”. Lula não é réu, nada resta provado e a vontade do povo é soberana. O que alguns podem fazer é procurar explicações para o comportamento da maioria dos eleitores brasileiros.
O duelo dialético da corrupção versus privatização parece ter sido vencido pela indiferença da maioria. Essa indiferença representaria ainda, quem sabe, nesta época de pós-modernidade, ao que Sérgio Buarque de Holanda chamou da reação do “homem cordial”. Pois bem, esse “homem cordial” seria, ainda agora, a representação simbólica do brasileiro típico. O excelente escritor Silviano Santiago, em seu recente livro “As raízes e o labirinto da América Latina”, editora Rocco, analisa os pensamentos de Sérgio Buarque em “As raízes do Brasil” e do ensaísta mexicano Octavio Paz em “O labirinto da solidão” e volta a falar no “homem cordial” brasileiro e no “pachuco”, seu similar mexicano. Fiquemos no Brasil. Silviano diz que “o retorno do recalcado tem um nome feliz e inglório, o homem cordial”. O “recalcado” a que ele se refere, quem sabe, pode ser entendido de duas formas: como o reprimido que se solta ou o excluído que tem a oportunidade de mostrar os seus desejos.
Essa leitura é que precisa ser entendida pelos que se consideram “elite” em um país mestiço e que não tem, na sua maioria, identidade com o que vem de fora do seu meio e da sua capacidade de apreender. Tanto isso é verdade que Alckmin passou a ser chamado por seu pré-nome Geraldo. Lula representa uma profunda identidade com a maioria dos brasileiros, os que não leem revistas semanais e não ficam acordados para ouvir debates tardios, pois têm que acordar cedo para trabalhar. Além disso, criou-se, artificialmente ou não, nestas eleições, especialmente no segundo turno, uma clara apartação social, o que pode trazer consequências danosas num futuro próximo.
O fato concreto, incontestável, é que o povo decidiu pelo modelo, no entender da maioria, que mais se aproxima da satisfação dos seus desejos. Quem sabe se o povo não está procurando, no seu inconsciente coletivo, a sua real identidade: deixar de ser postiço. Essa mobilidade social é argutamente definida por Silviano “como nem sempre fosse vedado a netos de mecânicos alçarem-se à situação dos nobres de linhagem e misturarem-se a eles, todos aspiravam à condição de fidalgos”. Foi o Brasil não “fidalgo” que venceu.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/10/2006.

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