CHUTAR O PAU DA BARRACA – Diário do Nordeste

Escrever algo e intitulá-lo de crônica é uma coisa aparentemente simples, mas não o é. Especialmente, se a tarefa é diária ou semanal, pública e sujeita a olhos ávidos para nos ver através de seus prismas existenciais. Mas falávamos de crônicas e cronistas. Há cronistas monotemáticos, cronistas de todos os assuntos e cronistas doridos, amargurados, como se as eras vitoriana ou romântica ainda fizessem parte deste mundo pós-tudo. O meu cronista preferido é Carlos Heitor Cony, que escreve diariamente na Folha de São Paulo, de quem sou leitor há décadas. E o Cony escreveu esta semana: “Tempo houve em que um cronista sem assunto era mais ou menos obrigatório, foi talvez a era de ouro do gênero. O cara abria a janela, olhava o mundo e a vida, sentava à máquina e escrevia sobre o nada, a falta de assunto. Hoje, com a inflação de assuntos, as crônicas já não se fazem como antigamente.”
É verdade. Há tanta coisa para se falar que a desculpa de falta de assunto pode parecer enfado, charme, deprê ou preguiça. Basta olhar além do nosso umbigo, da nossa micro estatura e teremos assuntos tão variados, como: eleições, corrupção, desastre aéreo, assaltos, sequestros, cinema, futebol, música, viagens, amor, saudade, amigos, personalidades, livros, Brasil, mundo, discriminação, família, saúde etc.
Agora, neste momento, estamos em um grande feriado no Brasil, que começou na quinta e se estende até hoje, domingo. Dos 180 milhões de brasileiros, mais de cem milhões estão de pernas para o ar, fazendo o nada, enxugando cervejas, bebericando umas e outras, comendo feijoadas e outras calorias brabas , mudando pneu furado, discutindo com agente de trânsito, vendo televisão, gritando nos estádios, queimando ao sol nas praias, visitando alguém em hospital, orando em igrejas ou aborrecidos em algum aeroporto por conta do atraso dos voos.
Essa nossa condição humana de seguir o calendário imposto, nos transforma em seres quase programados, seguindo rotinas e roteiros de vida que não fogem ao lugar comum, não nos permitem tentar o novo, o ousado, o que poderia ou poderá ainda nos apaixonar sem amarras, sentir as narinas pulsando e o sangue impelindo ao desafio, ao contrário da corrente. Mas, e os mas são para isso mesmo, temos medo de chutar o pau da barraca, de dizer o que é preciso e fazer o que nos anima. E aí, quando nos decidirmos pela mudança, aventura, destemor, o calendário terá mudado, será segunda feira e as amarras serão reatadas, a nau da liberdade ficará encalhada no trapiche da nossa indecisão e mesmo que o sol brilhe, o cinza repercutirá em nossas retinas.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/11/2006.

Sem categoria