FRENTE PARA O MAR – Diário do Nordeste

Vou chamá-los de João e Maria. Moram ali defronte ao Atlântico que se espraia e quebra quase ao pé deles. Não plantaram a árvore, mas gostam de sua sombra e é sob ela, dia após dia, que cuidam de morar. Um atrelado ao outro, quase atados, roupas empilhadas, banho a poucos passos, iluminação boa, sem IPTU, cabine da Polícia a poucos passos e brisa permanente. E com eles está o Japi, digamos assim, o pequenino cão misturado à alegria dos dois. Japi, João e Maria, entre alegres, sonolentos e dengosos, se aninham sobre uma relíquia de colchão graciosamente disposto sobre o carpete cinza que envolve o chão vermelho de ladrilho. E a alegria se constata na forma como as mãos jovens de Maria catam aquilo na cabeça de João que, vaidoso, peito nu, ainda porta uma dessas barbichas ralas.
Como todo os casais, brigam, ralham um com o outro, mudam roupas e até se amam ali mesmo, com a brisa a abençoar o clímax. Os olhares curiosos, dia e noite, são muitos, alguns balançam cabeças burguesas e não entendem talvez essa postura crítica, vanguardista, o descompromisso firme com o de trabalho, como se esse conjunto seja uma instalação viva de artista pós-tudo a chocar a plateia, cutucando a insensibilidade sócio-existencial que desnuda a indiferença dos provocadores dessa permitida atitude de ‘gentileza urbana’.
E aí chega um casal de estrangeiros, sentam ao chão e, em português arrevesado, dizem que são de uma ONG em favor da aceitação do homem em seu habitat e prometem um movimento internacional com base no amor telúrico, no direito inalienável de escolher o local de morada e citam o Pe. Lebret para um João confuso e uma Maria perplexa, enquanto Japi lambe um caroço de manga. Ao final, tudo documentado em uma câmera portátil comprovando o alcance desse gesto solidário.
E João e Maria se pensassem, admitiriam que bem cabe uma análise sociológica tendo como substrato o direito de morar bem e receber, com ou sem protetor solar, raios do sol acompanhando o ócio diário com amassos, saídas fisiológicas e comer o que não lhes falta, pois, prazerosos por sua companhia os vizinhos, sugerem que não instalem fogão, pois a dificultaria a ação dos bicos de gás.
E assim, como nas belas histórias de amor, essa conjunção de almas é abençoada contra a maldade dos que se arvoram de donos do pedaço e gastam energias em caminhadas vãs, pois nada mais são que sobrepesados burgueses queimando excessos de alimento que falta a outros. Eles, João e Maria, devem ficar defronte ao mar.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/12/2006.

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