SAUDADES – Diário do Nordeste

O Natal vai ficando próximo e lembro dos que estão longe dos olhos, se perderam no insondável, mas se quedam firmes nos escaninhos da lembrança, lá onde não sai quem se retira de cena, pois as marcações gravadas nas saudades teimam em não se afastar. Assim é que percorro o labirinto do meu tempo vivido e vou pinçando os que se foram e não voltam na dimensão em que nos encontramos. Cada um do seu jeito peculiar, na amizade resolvida ou questionada, no folguedo ou na expiação, em longos tempos ou breves vidas em comum, mas ainda sinto-os de formas distintas, como se existissem diálogos inimagináveis em que conseguimos rir de nossas lambanças, andanças, festanças ou desesperanças.
Se bem me lembro, o primeiro foi Francisco Parente de Vasconcelos que, ainda universitário, se fez éter lá no Rio de Janeiro. Depois, vieram chamar o Marcelo Duque, camarada de colégio, amigo de embuanças que se tornou diverso de todos e se foi. Geraldo Deusdarah, colega de direito, viajou em seguida por conta de seu coração sofrido. O comandante Edson Queiroz, tão forte quanto o monólito que o tragou, espaçou-se, refundindo-se de forma gaseificada e como água pura, jorra no eterno. E o jeito direto, instigante, atento e arguto do Alcimor Rocha deixou saudade.
E que peça nos pregou o Rogaciano Leite, poeta-amante, isolando-se para sentir-se pronto, aquietado, quem sabe, e definitivo. Raul Fontenele ainda nos fixa com a imaginária brilhantina, camisa bem passada e o vejo impresso e impermeável. E aí o riso, galhofa e sentimentalidade do Tancredo Carvalho ocupam o vazio da mesa onde não mais nos reunimos, pois dispersos ficamos. Como discutir mais com o Régis Jucá ou ouvir o seu jeito didático de falar sobre as coisas do coração, órgão e sentimento?
E é nesse estado meio entre o não entender mistérios e o resgate da parca memória que me sinto agora e procuro, não com lágrimas mas com emoção, as nuances sutis de cada relação com esses amigos homens, sem esquecer – e como poderia – a mulher amiga, Natércia Campos, que irmã se tornou pelo olhar comum e bem querer que enlevava e nos tornou cúmplices eternos.
E nestes dias de Natal, quando as perdas dos amigos pesam e me tornam roto, relembro, com saudade profunda, além dos que enumerei com afeto, a figura do meu pai, simples e destemido, capaz e independente, inteligente e perspicaz, cioso de suas crias, levado que foi ao fechar o portão de sua casa, como se simbolizasse, nesse último ato, a abrupta saída de cena, tão gente que me perco em saúda-lo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/12/2006

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