E como não fujo à regra geral, tento fazer uma lista de lembranças neste Natal. Penso na família, amores e amigos. Arrisco imaginar o que cada pessoa gostaria de receber, mas sou traído por desejos de que cada uma recebesse um livro. Não seria um livro impresso, porém especial e único para cada um. Nesse livro, manuscrito, eu falaria das emoções em comum, de amor ou benquerença, pediria desculpas por faltas cometidas, por ansiar que muitos vivam e reajam da forma como eu penso que faço.
Diria que sinto falta delas, das que vejo sempre ou quase nunca e seria bom a nossa linguagem ter identidade comum, sem mal-entendidos, coberta de leveza, alegria e bem-aventurança. Pediria desculpas por minhas irreverências, erros, peripécias e desditas. Poderia até acontecer lágrima umedecendo página como prova dos pedidos recíprocos de perdão. E tentaria apagar gestos duros e atitudes fátuas. Verdade.
E se tudo o que escrevesse nesses livros ecoasse nos sentimentos de cada pessoa, eu ficaria alegre como menino em entrada de circo e daria cambalhotas de felicidade, mesmo tendo que passar linimento no corpo dorido no dia seguinte. Mas, a par das dores físicas, este corpo ficaria mais ereto e conteria brilho permanente nos olhos que já viram tanto e enxergaram pouco. Olhos desviados de rotas, mas que voltaram a ver a luminosidade do sol, as nuances do claro e escuro, a segurança tranquila de um abat-jour que focava certo quando o corpo pedia repouso e se resguardava por trás de outros livros.
E assim, por não ter sabido escrever cada um desses livros, mesmo que poucas páginas tivessem, eu me quedo triste pela incapacidade de me fazer entendido, de expandir este coração que ama mas tem medo de dizê-lo com alma e cara lavadas, peito arfante e riso encabulado de felicidade. E sou levado a caminhar nas alamedas das lembranças vãs, as que não levam impresso os meus sentimentos que, de forma marota ou infantil, se fecham quando deveriam dizer, simplesmente: estou aqui e estou com você. Feliz Natal.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/12/2006.

