BALANÇO DO ANO – Diário do Nordeste

As pessoas que têm sentimento reconhecem suas faltas e enfrentam as consequências, sabem que todo tempo é época de balanço, não o de haveres e deveres materiais, mas os que, como refletia Einstein, acreditam que existam duas maneiras de ver a vida. Uma, é pensar que não há milagres e a outra é que tudo é um milagre. Sendo relativo, eu diria que a vida é um milagre sublime, mas cada pessoa tem que fazer sua parte, sair da superfície e descer ao seu eu profundo e descobrir-se.
A vaidade, muitas vezes, faz muita gente inchar o peito e admitir que tenha a melhor cabeça, a companhia mais interessante, a casa mais bonita, a família mais perfeita, a vida mais justa, a resposta mais pronta e a saúde inabalável. E aí eu me lembro do que disse, certa vez, Carl Sagan : “diante da vastidão do espaço e da imensidade do tempo, é uma alegria para mim, partilhar uma época com você”. É bom compartilhar alegrias na simplicidade do existir e acreditar na permanência do efêmero, na aceleração que é a vida, esse tempo que nos arranca do ventre materno e nos põe no mundo para o que der e vier.
E estou diante de uma taça de vinho. Olho a sua cor vermelha e lembro que alguém já disse que o vinho é poesia líquida. Então, sorvo poesia. E, de olhos fechados, vejo que viver é como estar na moda. Um dia, saímos de moda e viramos o estilo que fizemos ao longo do tempo que nos é destinado aqui na terra. E cada um vai, dia a dia, fazendo o seu estilo, deixando sua marca, costurando a sua boa ou má fama. E temos que ser pastores dos nossos momentos e descobrir que os possíveis gracejos dos que não nos conhecem a fundo são ultrajes e que o riso deles talvez seja uma forma inconsciente de admiração e inveja.
E ainda não falei do ano que está a sair de moda, virar estilo, pois se consolidará, em nível pessoal, o que assentamos e colhemos. E no mundo, o que aconteceu, mereceu registro e ficará para julgamento. Cada homem é a sua moda. Seu estilo é a sua alma, mesmo que, por ser invisível, não seja reconhecida de pronto. As almas não têm fim. Feliz Ano Novo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/12/2006.

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