MÉXICO, TÃO DIFERENTE E TÃO IGUAL

O México tem, entre tantas coisas, terremotos, pirâmides e uma rica tradição pré-colombiana. O Brasil não tem nada disso. Se você for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira não vai encontrar muita semelhança. Se for comparar o biótipo do mexicano com o do brasileiro não identificará muitos traços de uma raça comum. Apesar disso, na essência, somos muito parecidos, embora não usemos “sombreros”, não comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e não tenhamos nada da tradição azteca. Isso é o estereótipo ou visão aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O México e o mexicano são muito, muito mais que isso.
O que nos une, de uma forma clara e inquestionável, é o que se convencionou chamar de “latinidad”. Essa latinidade é esse nosso jeito não anglo-saxão, não germânico, não helvético ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, após pouca conversa, têm histórias e sentimentos em comum. Com outros povos não latinos não há essa identidade, por mais que se tente. Não falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por nós mesmos, que só retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres, México, 1994, Guantanamera, cubano, 1995, e o nosso Central do Brasil, 1997, que teimam em realçar as estéticas das nossas desgraças e mazelas. Não é questão de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas será que só temos misérias e tragédias para contar e mostrar?
A latinidade a que me refiro não é essa visão cruel, embora real, mas a certeza de que temos saída e estamos em meio a um processo novo de imensa transformação em que todos os povos são obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez, pouco a pouco, ir gostando do México e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida. No ano 2000, o Embaixador mexicano no Brasil, Jorge Eduardo Navarette, veio a Fortaleza dar uma palestra. Eu estava lá. Após a palestra, batemos um papo acidental e essa conversa foi puxando outra e mais outra. Depois de algum tempo, me vi Cônsul Honorário do México no Ceará. Só então o Embaixador Navarette me contou que essa escolha teve que ser aprovada até no Senado mexicano. Levei um susto e tomei posse em meio a uma festa com comidas típicas, requintada exposição sobre a arte e a cultura mexicanas e um recital de música erudita. Mas isso é outra história.
Pouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura não ostentantória de cada um. Não era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, três ou quatro línguas, entendia de arte, música, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidadãos de excelente nível. Conto um episódio de solidariedade espontânea: acompanhei quando um jovem cearense que lá estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e atenção. O México é assim.
Posso citar alguns exemplos de pessoas que fui conhecendo: a Ministra Alejandra Garcia; a embaixadora Cecília Soto, que sucedeu a Jorge Navarette; e o então chanceler Jorge Castañeda. Depois, conheci o violoncelista Carlos Prieto; o Cônsul-Geral Jorge Sánchez, o Presidente Vicente Fox e o Secretário-Adido Cultural Felipe Ehrenberg, além de outros.
Qualquer pessoa das citadas poderia ser objeto de uma crônica. O Embaixador Jorge Navarette e a Ministra Alejandra Garcia são diplomatas de carreira, viajados, amantes da gastronomia, música clássica e conhecedores da cultura mexicana. Cecília Soto, atual embaixadora no Brasil, é jornalista consagrada, ex-candidata a Presidente da República, aguçado gosto literário, além de ser uma mulher cativante, sagaz e leve. O violoncelista Carlos Prieto é possuidor de um dos mais raros violoncelos Stradivarius do mundo, concertista internacional dos mais requisitados nas grandes salas européias e americanas e nos honrou com um concerto no Auditório da Unifor. Jorge Castañeda é um social-democrata moderno, professor universitário nos Estados Unidos e profundo conhecedor de política internacional. Jorge Sañchez, Cônsul-Geral no Rio de Janeiro, é um inveterado cineasta e um exímio contador de histórias. O Presidente Vicente Fox é um pragmático homem de empresa, forte e decidido, conhecedor de todos os meandros das Américas e que conseguiu se eleger derrubando uma oligarquia política de mais de 70 anos.
Com todo esse time de figuras notáveis, deixei para falar por último de Felipe Ehrenberg. Por qual razão? Primeiro, é preciso dizer quem é Felipe. Felipe não é diplomata de carreira. Foi convidado, por sua história profissional, a ser Adido Cultural no Brasil pelo Presidente Fox e já decidiu que vai morar o resto de sua vida por aqui. É um artista plástico provado e aprovado não só no México, como em muitos países. Sessentão, fartos bigodes, fala grave e uma mão tatuada, vai mostrando em sua conversa descontraída a profunda e versátil cultura que possui. Depois, porque Felipe teve uma imediata identificação com o Ceará, a ponto de termos, ele e eu, redigido a Carta de Fortaleza, documento síntese das decisões de fórum internacional reunindo embaixadores, cônsules e adidos culturais de 27 países, realizado aqui no Centro Dragão do Mar pelo Governo do Estado do Ceará, e ter provocado a escolha de Fortaleza como cidade estrangeira convidada para a Feira Internacional do Livro na Cidade do México, em outubro de 2004.
É bem verdade que o município de Fortaleza não se fez e se fez presente. Explico: a Secretaria da Cultura do Ceará pegou o pião na unha e vez às vezes de Fortaleza, levando uma comitiva ao México que tinha de tudo, desde o sanfoneiro Waldonys e sua banda, a escritores, pintor, cordelista, editor, jornalista, montador de estante e pessoal de apoio. Pois esse Felipe, depois de estabelecer contatos com José Angel Leyva, Secretário de Cultura do Governo da Cidade do México, Mário Gutiérrez, do projeto Arte por toda a parte, e o Secretário de Cultura de Guadalajara, Santiago Baeza, os fez conhecer Fortaleza- por ocasião da última Bienal do Livro – para ganhar apoio e reforçar a nossa escolha como cidade convidada. No final, deu tudo certo.
Lá no México, Felipe só manteve contato conosco na abertura solene da Feira, quando a Secretaria da Cultura Cláudia Leitão falou em nome de Fortaleza. Depois, Felipe desapareceu e nos deixou livres e soltos em pleno outono mexicano em meio a tendas brancas no Zócalo, no centro da cidade, cercados de gente, livros e artes por todos os lados, mas com o apoio integral do Governo da Cidade do México e a plena assistência de José Angel Leyva e Mário Gutiérrez, devidamente acolitados por Karla Flores. Felipe é assim. O México é assim.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2005.

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