Na semana que passou, a escritora Nélida Pinõn visitou a Academia Fortalezense de Letras. Coube a mim a tarefa de saudá-la e ´dizer duas palavras´. As duas palavras seriam: Nélida Pinõn. Bastaria isso. Procurei, todavia, fazer apenas algumas rápidas observações sobre essa ilustre visitante. Ei-las: Nélida é um nome novo que com ela nasceu e que veio a existir pela criatividade de seu pai, Lino. Nélida é uma anagrama de Daniel, seu avô materno. Piñon significa um pinhão ou descanso de gatilho. Pinhão é uma engrenagem que se mexe, movimenta e gira. Nélida tem sido essa engrenagem na literatura brasileira. Professora de Criação Literária na UFRJ, romancista e contista, saiu de Vila Isabel, no Rio, e foi para a Galícia de seus pais dos 10 aos 12 anos. Voltou e aqui sedimentou a sua formação. A partir daí virou cidadã letrada do mundo, descansando o seu gatilho ou mexendo as suas engrenagens do saber na City University of New York, Columbia University, Miami University, John Hopkins University, Universidad Católica de Lima e na Universidad Complutense de Madrid.
Suas engrenagens literárias continuaram a girar. Dessa vez em direção aos dicionários e à imortalidade.Pois foi ela, em 1990, a sucessora de ninguém menos que Aurélio Buarque de Holanda na Academia Brasileira de Letras e, em 1996, substituiu a Antônio Houaiss na Presidência da ABL. Era a primeira mulher – e única até hoje – a ser presidente da Academia Brasileira de Letras. Uma mulher de letras, cercada por muitos fardões, guardada ou guardando Aurélio e o Houaiss, os filólogos e os dicionários.
A obra de Nélida é vasta. Não cabe analisá-la neste arremedo de apresentação. Mas recomendaria, entre tantos romances e contos, pelo menos um breve conto: I love my husband. Nesse conto, Nélida vai quase nocauteando o leitor, mas o deixa consciente para a reflexão sobre o viver a dois nesta terra brasilis, ainda tão machista.
A nossa ilustre convidada é mulher de muita premiação. Em 1995, entre outros, ganhou o Prêmio Internacional de Literatura Juan Rulfo, da Universidad de Guadalajara, no México. Antes, já havia ganhado os prêmios nacionais Walmap, Mário de Andrade, Pen Clube, Bienal Nestlé, Golfinho de Ouro e outros.
Em seus romances (Guia-mapa de Miguel Arcanjo, Madeira feita cruz, Fundador, A Casa da Paixão, Tebas do meu coração, A República dos sonhos, A doce canção de Caetana, Vozes do Deserto etc) e contos ( Tempos das frutas, Sala de armas, O calor das coisas etc), Nélida deixa flagrante a sua rara habilidade em tratar dos mistérios, dilemas e angústias do fazer literário, e isso parece incomodar aos que não sabem que a glória de quem escreve é ser bem lido por seu povo, tornando-o mais reflexivo e consciente das dores e amores do mundo. Nélida faz isso e os seus leitores sabem disso há mais de quarenta anos. Fique bem-vinda, sempre.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2005

