MULHER TEM DIA?

Não concordo que 8 de março seja o Dia das Mulheres. Aliás, concordo apenas do ponto de vista da comemoração, da luta contra os preconceitos e das vitórias que alcançaram, mesmo com ou apesar de muitos homens.
Não vou cair no exagero de dizer que todo dia é dia da mulher. Tampouco direi que todo dia é dia do homem. Mulheres e homens de hoje ainda são herdeiros de preconceitos, desacertos, afetividades truncadas e vidas sofridas. Estão se redescobrindo, estão ensaiando relações novas, mas pecam em seus fundamentos.
Mulheres e homens se chateiam, veem diferentemente as suas relações afetivas, têm níveis de paciência diversos e as suas crenças nos seres humanos e no trabalho obedecem a juízos de valor com níveis distintos de percepção.
Mulheres e homens precisam muito descobrir porque as suas diferenças básicas não podem ser diminuídas, rediscutidas e acertadas. Se não acertadas, mas aceitas.
Neste tempo de hoje em que quase todos estamos, em menor ou maior grau, insatisfeitos com o desenrolar de nossas vidas é preciso humildade e sabedoria para discutir o simples. Porque ele não tem o mesmo nível de paciência dela. Porque ela se apega a detalhes que não ele não vê. Porque ela reclama da sua desorganização e ele não aceita a pia coberta de cremes, colônias e perfumes. Porque ainda não descobrimos uma forma cordial e leve de entender a função do dinheiro em nossas vidas tão diferentes, mas complementares.
Porque não vemos os filhos com olhos similares e os criamos divididos com as nossas formas diferentes de amor. Porque nos apropriamos de frases soltas ditas no calor de uma discussão e fazemos disso um grande problema. Por que traímos, não o amor, mas o que não aceitamos na outra pessoa, tão frágil quanto nós.
Porque discutimos sem o uso da razão e deixamos que tudo vá mais longe que o necessário, porque não aprendemos a pedir desculpas e não cultivamos o riso e a descontração como bases de uma relação, mesmo que ela seja difícil e pesada. Por que temos que ser vitoriosos em decisões bobas que vão se tornando maiores que queríamos. Por que?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/03/2005.

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