SAINDO DA FOSSA

O tempo de cada pessoa passa, segundo a segundo. A consciência desse detalhe acaciano nos faz pensar em não gastar mal a nossa máquina de viver, o corpo, que se imagina também possa abrigar uma alma. Como o tempo pode nos oferecer, sem que se peça: rugas, gorduras, celulites, dor nas costas, olheiras, pressão alta, insônia, visão curta, torcicolos, cabelos ralos etc., vamos nos olhando nos espelhos e procurando respostas. A resposta é o próprio tempo. Essa ampulheta cruel que não para. Entretanto, muita gente acredita que há formas de ir enganando o tempo, como se fora um Mefistófeles, e imagina fazer plásticas, regimes que aparecem em revistas e se submeter a uma ditadura da estética que não tem referência padrão, mas que mexe com a cabeça de muitos. Ou ler autoajuda.
Um cara, sem profissão conhecida, resolve escrever um livro de medicina alternativa e vende milhares de exemplares. Mera e insossa colagem de publicações antigas de medicina natural. Mas os incautos compram e acreditam que, fazendo isso e aquilo, conseguem atrasar o seu relógio vital. Outros oferecem respostas prontinhas para o dia-a-dia em livros dito interessantes ou milagrosos que servem para dar conselhos, lições de vida, imaginam muitos. Cópias deslavadas. Apesar de tudo isso, de repente, caem na real vida e lá vem crise existencial. Um dia desses, por exemplo, uma pessoa amiga ligou e falou que a sua vida não valia mais nada, pois mesmo com plástica, regime, botox, alongamento, personal, acumputura, Reik, florais de Bach e uma vidente, o seu relacionamento havia ido para o brejo. Estava na fossa. Não concluiu. Caiu no choro e desligou.
Dei um tempo e liguei de volta. Vi que não adiantava repisar conselhos manjados. Não era simples fossa, parecia uma depressão pra valer. Imaginei que só resolveria com ajuda psiquiátrica. Foi daí que perguntei a tal pessoa: você tem plano de saúde tal? Ela falou que sim. Recomendei, então, o nome de um amigo psiquiatra. Maduro, fumante, ouve música, toma umas e outras nos fins de semana, escreve sempre e lê tanto que está quase cego, mas entende de farmacologia e da alma humana, vivido e sofrido que é.
Havia esquecido do fato. Após poucos meses eis que a pessoa me liga de volta, voz firme: “alegre e feliz com o que tem e o que é, sem essa de chorar o relacionamento que já estava falido mesmo” e diz que está “partindo para outra”. E ressalta que a ligação era para agradecer-me a indicação do nome do médico que a ajudou a “sair do buraco e recuperar a autoestima”. O que mais destacou: “não pagou nada”, bastou mostrar o cartão do plano de saúde e foi atendida com profissionalismo e descontração”. E pede para que eu faça uma crônica e diga o nome do médico que a atendeu. Não sei se ele vai gostar, mas o nome é Airton Monte. Pedido satisfeito.

João Soares Neto,
Escritor,
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/04/2005

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