Num dia qualquer do fim do século passado, Natércia e eu viramos amigos. Foi uma chuva de benquerença lavando as nossas almas já com tantos poréns. Descobrimo-nos amigos, aquela amizade definitiva e sem adjetivos que aporta e diz: estamos juntos. Pois foi assim. Era quase sempre na sua casa, doada pelo pai atento e cuidadoso. A varanda era o canto da conversa. De lá, o mar parecia tão perto, mas não se ouvia o seu barulho. Eu chegava e ela vinha com as mãos cheias de papéis, cartas e livros que íamos lendo, comentando, destrinchando, como se a destecer as redes que prendem as pessoas em mundos paralelos. Alegre, brejeira, crítica sem nenhuma acidez pessoal, entronizou-me em tudo.
A partir dos tempos da Praia de Iracema, dos avós, a vida no Benfica, os filhos nascendo, as várias moradas, os primeiros escritos, o prêmio em São Paulo, o desfazimento do altar. A dor não superada da perda do filho Zé, e para cobrir o vácuo a profusão de cartas lítero-afetivas trocadas por correio, de forma ávida e romântica, com intelectual radicado em São Paulo. As amigas e a vida das filhas, as daqui e as que brilhavam em Brasília. E tinha o amor maduro lá em Acauã, tão terno e forte como uma estaca bem fincada, com atenções e idas e vindas.
Desse amor saiu livro com conversas de alpendres. E no meu pensar, sua vida, a partir daí virou definitivamente. Câmara Cascudo cruzou o seu caminho e pode ter sido o mote das ricas imagens advindas. E aí a contista foi se alicerçando em romancista com luz, tempo, história e vernáculo próprios, criando a casa a contar sobre vivos e mortos o que nenhum analista ouviu e a exorcizar os demônios que a todos visitam até que a água encerra tudo. Outros prêmios, ingressos em academias, o casamento matutino da caçula em mês de luas azuis, o desvelo pelo filho varão, os telefonemas sem fim com a irmã dos Guararapes e o tentar cuidar da mãe que se bastava na sua lucidez.
Ríamos e padecíamos com os nossos individuais casos afetivos, cada um do seu jeito, como só o fazem os que se conhecem sem mentiras e sabem que o afeto não precisa de forma definida para existir. Amigos, como não sabíamos haver entre homem e mulher. Um dia, ela me fala da água balançando. Sempre água. E aí não se antecipou sentimento que doía um pouco a cada dia. Foi um longo lutar médico, seguido de altos e baixos, com serena dignidade. E então veio a manhã do dia de 02 de junho de 2004, aquela era a exata manhã que eu não queria que acontecesse E veio precedida da certeza que espantava com conversas sérias e troças, mas sabia que Ela chegaria. E desde então não há tempo em que a cabeça deixe de pagar sentimentos e, em alguns momentos, ainda nos imagino conversando.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/06/2005.

