O GRINGO-BRASILEIRO ERROU

“Por que um país católico, como o Brasil, tem uma cultura tão menos confessional do que a minha pátria protestante, os Estados Unidos, onde até os não-famosos escrevem sobre os seus triunfos e traumas, não importando o quão triviais eles sejam?” A pergunta é feita na Folha de São Paulo pelo escritor americano Michael Kepp que mora a 22 anos por aqui. Discordo completamente do “gringo-brasileiro”, como ele se auto-intitula.
Kepp erra ainda ao dizer que “os brasileiros somente se expõem nos reality shows.” Ora, ele esquece que esses “bigs” da vida começaram lá na sua pátria. Uma coisa é ser confessional, outra coisa é a palhaçada em que a televisão mostra cenas íntimas de pessoas trancafiadas à espera do dinheiro do prêmio ou da glória futura.
Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Luiz Fernando Veríssimo, Airton Monte, Lya Luft e outros são puramente confessionais. Cony contou o drama da doença e morte de seu cachorro, sem falar na vida suburbana de seu pai. Zuenir relatou todos os seus passos de sua luta vitoriosa contra um câncer. Veríssimo descreve sobre o saxofone que toca, o time que torce e faz troça de sua condição de gaúcho macho. Airton se derrama falando dos amigos, das músicas que ouve, do dinheiro que espera ganhar na loto e das longas tardes-noite de domingo em que o vinho o embala na escritura. Lya se desnuda como mulher madura e fala como gente comum de dores, amores perdidos, desenganos, mas com esperança.
Creio que Kepp anda lendo pouco os cronistas brasileiros. Bastaria ler, por exemplo, a Danusa Leão. Ela é confissão pura, sem retoques e com a liberdade da mulher que tirou todos os acessórios reais e virtuais e resolveu assumir a sua solidão, as lembranças dos ex-amores, a dor pela perda de um filho e a declarada antipatia pela vida social que levava. Os cronistas brasileiros, maiores e menores, se mostram totalmente no que escrevem.
Qualquer leitor arguto verá as feridas da alma de quem registra fatos no papel, mesmo que a ironia presida as suas palavras. E olhe que não estou falando na profusão de livros lançados todas as semanas. Neles há meninos sonhando, adolescentes criticando, maduros se questionando e velhos se revelando. Muitos falam de suas vidas e as famílias ficam felizes por terem um “escritor” entre os parentes. Este não é só um país da fofoca, mas é também o país em que a maioria das pessoas, mesmo as que não escrevem, falam de suas entranhas e das coisas estranhas que acontecem em suas vidas.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/06/2005.

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