XODÓ BEM ANTIGO

Dizia Mark Twain que “a pessoa que não lê bons livros não tem mais mérito que o homem que não sabe ler”. Foi por acidente que comecei a gostar de ler. E a cada dia que passa vou ficando mais ligado aos livros. É uma antiga história de xodó. Eu tinha menos de 14 anos quando uma camioneta de cargas parou defronte à nossa casa. Dela fizeram descer duas estantes de madeira com vidros. Na frente de uma estava entalhada no frontespício a palavra “Ateneu” (que significa academia ou escola e é também o nome de um romance – O Ateneu -de Raul Pompéia, escrito em 1888). Pois bem, começava ali, naquele dia, o meu xodó com os livros. Meu pai havia comprado toda a biblioteca de José Maia de Almeida. Sei disso porque em todos os livros estava a assinatura com letras bem desenhadas de Almeida. Até hoje não sei quem é ou foi José Maia de Almeida. Alguém sabe?
A maioria dos livros, todos encapados em papel madeira, era de bons autores brasileiros, tipo Machado de Assis e José de Alencar. Havia poucos estrangeiros, alguns livros de História Geral e do Brasil e enciclopédias. Mandei fazer um carimbo e apelidei as duas estantes de “Biblioteca Bezerra de Oliveira” e, em cada livro, dava um número, a partir do 1.
Faço a máquina do tempo girar e me vejo agora na Associação Brasileira de Bibliófilos, por obra e convite de José Augusto Bezerra, este sim, um bibliófilo apaixonado. Bibliófilo é quem ama e cuida de livros, os de primeira edição e, especialmente, os raros. Vai daí que recebi no dia 31 de maio passado, junto ao jornal Folha de São Paulo, o caderno Sinapse, um suplemento que a cada 30 dias traz matérias gostosas de se ler. Pois bem, a edição trazia na capa a manchete “Por amor aos livros” e falava de bibliófilos e de suas coleções. Mandei, com um bilhetinho, a tal Sinapse para o José Augusto Bezerra que, por sinal, acaba de ingressar, por méritos, no Instituto Histórico do Ceará. Foi aí que se viu a injustiça que a Folha cometeu com a nossa ABB. Deu destaque à Confraria dos Bibliófilos do Brasil que só tem 10 anos e esqueceu de lembrar da nossa Associação dos Bibliófilos do Brasil que faz exposições periódicas (agora mesmo tem uma sobre Don Quixote na Academia Cearense de Letras) e se orgulha dos bibliófilos que a integram. Está feito o registro. Que a Folha faça a correção, e breve. Caso contrário, mandaremos à sua redação qualquer livro-bomba, que certamente não fez e nunca fará parte de nossos acervos, pois como dizia Voltaire:” acontece com os livros o mesmo que com os homens: um pequeno grupo desempenha um grande papel”.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/06/2005.

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