Gonzaga é uma cidade perdida no interior de Minas Gerais. Tem menos de 6.000 habitantes, mas possui 4.599 eleitores. A renda média mensal é de 240 reais e lá não existe leito hospitalar. Foi nessa cidade que nasceu Jean Charles Menezes, o brasileiro de 27 anos, morto dentro de um vagão de metrô de Londres com oito tiros, dizem que imobilizado e de bruços.
Um dia, como tantos outros brasileiros sem esperança, ele resolveu enfrentar a vida e escolheu Londres. Fez-se eletricista, ralou, regularizou seus documentos e ia vivendo. O problema de Jean Charles é que ele não era caucasiano. Era um brasileiro de raças misturadas, como quase todos nós. Por estar em Londres, a cidade que estava sendo alvo de atentados terroristas, Jean Charles foi perseguido por homens a paisana que eram policiais. Entrou no metrô e morreu, do jeito que todos já sabem.
Londres abriga, como toda metrópole, um grande contingente de estrangeiros, especialmente os vindos do dito 3o. mundo em busca de emprego e um lugar em meio ao sol, ou melhor, à bruma quase diária. Pesquisas e análises feitas por organismos internacionais, ongs e assemelhados mostram claramente que esse êxodo é produto exclusivo da falta de oportunidade em seus países de origem. Acresça-se a isso: os imigrantes constituem mão-de-obra barata e, quase sempre, submissa e explorada.
Quase todos os dias pessoas como Jean Charles estão tentando atravessar fronteiras de países. Só no México, neste ano de 2005, entraram cerca de 60.000 brasileiros e só há registro de saída de 7.000. Os outros 53.000 estão entre os que já tentaram atravessar a fronteira e conseguiram, os que tentaram e foram presos, os que tentaram e morreram e os que ainda estão tentando. Nos próximos dias chegarão em avião fretado 300 deportados.
Voltemos a Londres. De lá o corpo de Jean Charles voltou para Gonzaga. Foi enterrado. Houve discursos e cobertura jornalística. Por certo, uma indenização seguiu junta e a família ficará agradecida ou dará procuração a um diligente advogado que, certamente, se apresentou solícito.
Em breve, o caso Jean Charles será esquecido, mas outros brasileiros como ele estarão sendo empurrados para a aventura no exterior e correrão os mesmos riscos para mandar dinheiro para os seus, contabilizado pelos bancos brasileiros, quem sabe, como “divisas vindas do exterior”.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2005.

