DE MÉDICO E LOUCO …

Conviver é uma forma primária de se obter ou pensar obter saber. De médicos e loucos, todos temos um pouco, dizem. O meu “fortuito e pseudo – saber médico” é produto de “corda de amigos-clientes”, da convivência com médicos, de razoável ouvido e da curiosidade que me leva a pesquisas casuísticas na Internet, leitura do DEF – dicionário de especialidades farmacêuticas, e a alguns poucos livros sobre os meus males e os dos amigos. Alguns médicos amigos até já me disseram: João, cuidado com o Conselho Regional de Medicina. Fiquei temeroso, acreditem.
Pois não é que, em vez de ser punido por “exercício ilegal”, uma entidade médica me confere um título honorífico? Sou agora um dos seus pares, imaginem. E esse título tem relevância ao ser outorgado pela Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, presidida pelo poeta médico José Telles. Teoricamente, os escritores veem mais, têm sonhos e delírios. E quando são delírios verdes de esmeraldas surgem com hiperatividade e mialgia, sem nenhum sinal de crioterapia nas emoções.
Sabe-se que a literatura sempre se valeu da medicina como contraindicação à mesmice e a usa como plasmadora de enredos e tramas. Consta que Hipócrates comparava o exercício da medicina com uma cena em que intervêm três atores: o paciente, o médico e a enfermidade. Talvez seja esta a razão primeira da literatura e da medicina caminharem juntas, tentando, uma e outra, entender, explicar e resolver os problemas humanos. Claramente, o exercício da medicina é uma tarefa difícil, pois deve associar ciência ao humanismo indispensável à boa prática, no entanto fascina escritores e é matéria prima importante para a literatura. Igualmente, a literatura extasia muitos médicos.
A escrita é como uma hemoptise imaginária, o sangue jorra pela mão que faz curar mente e corpo. É a premência de colocar no papel, ou no computador, como se fora uma emergência, juntando palavras. Não meras fórmulas alquimistas ou teses científicas, mas a quimera da escrita, uma espécie de catarse, de ressuscitação do eu profundo
Então fica acertado assim, que por ser meio louco, por não ser médico e apenas mero aprendiz de escritor, amigos médicos-diretores da Sobrames, após grave junta médica, com anamnese e estudo clínico específico, cuidaram de apascentar meu juízo com o título de sócio honorário e o fizeram justo em um congresso nacional, para que eu assumisse de público, em caráter nacional, o compromisso de nunca mais exercer a minha proibida e incipiente medicina de algibeira. Ledo engano, agora é que a coisa complica, pois fui legitimado, Transformaram-me em colega.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/08/2005.

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