A DURA ARTE DE VENDER LIVROS

No início da década de 80 tentei ser editor. Criei uma pequena editora. Só consegui fazer uma publicação técnica e dei o negócio por encerrado. Não me atreveria a voltar a ser editor. É uma tarefa difícil, incompreendida e de resultados imprevisíveis. Isso não impede que observe e admire os editores profissionais. Há pouco tempo, por dever, curiosidade e convite, participei de duas feiras de livro. Uma em Fortaleza, outra no México.
Na Feira de Fortaleza, anfitrionei mexicanos desejosos de conhecer o nosso jeito de fazer feiras e fiz uma travessia literária com Moacyr Scliar. A Feira é realizada no ambiente refrigerado do Centro de Convenções, em meio à dificuldade de estacionamento e a uma circulação forçada por pisos diferentes.
Na Feira da cidade do México, fui como convidado e vi a sua montagem em uma grande e plana praça central com pequenas, médias e gigantes tendas brancas, armadas ao ar livre em meio a bonitas esculturas e a uma vegetação em vasos. Ao canto, área para shows. Ao seu derredor, circulavam veículos, inclusive ônibus, sem falar na estação de metrô no subsolo. O povo se misturava naturalmente à Feira, pois ela estava no meio deles.
Em ambas, vi o cuidado dos organizadores, editores, livreiros e autores, em apresentar opções várias de livros, especialmente os de preços populares. Das feiras, fiz dois registros.
O primeiro, em Fortaleza: Sérgio Braga, que trafega entre a livraria e a editoria, revelou-me que as boas vendas foram apenas as de livros a preços abaixo do mercado, os chamados saldos. O segundo, no México: Luiz Falcão, da Imprensa da UFC, que comandou a venda de livros na bem decorada tenda do Ceará, viu como é duro vender livros em Português. Ao final, resolveu doar os livros que sobraram a instituições universitárias, culturais e à Embaixada do Brasil, sob pena de se pagar o frete de volta. Valeram os contatos.
Na última Feira Nacional do Livro, em Porto Alegre, que também usa tendas e abomina os estandes e refrigeração, ficou clara a dura realidade do mercado de livros que encolheu 8% no último ano. O Brasil não tem ainda “a fome de livros”, projeto que o ministro Gilberto Gil tenta incrementar. Apenas 26 milhões de brasileiros são leitores ativos. Eleitores, sim. temos mais de 110 milhões. Mas isto é outra estória para livros de História.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/09/2005.

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