Terça-feira, 15, foi Dia da Proclamação da República. Feriado Nacional. O “brasileiro é um feriado”, já dizia Nelson Rodrigues. Foi dia de empresas paralisadas, repartições fechadas, cerveja, livros/jornais abertos, sol e papo furado. Poderia ser também o dia em que cada um tivesse pensado na sua relação com a República, o Estado organizado, a coisa pública que deveria ser comum a todos nós, mas parece ser mais de alguns que de todos. Nós, quer queiramos ou não, somos republicanos.
Quando Deodoro da Fonseca proclamou a República, em 15 de novembro de 1889, havia um clamor nacional, uma vontade imensa de mudar os destinos do Brasil, este país colossal, rico e poderoso, que, apesar disso, se confunde com uma seleção de futebol. Não é brincadeira. Se alguém fizer uma pesquisa e perguntar: o que significa Brasil? Muitos, muitos mesmo, responderão que é a seleção canarinha, o time dos ronaldinhos e do Parreira. É pena. E aí desfraldam a bandeira e torcem. Ora pois.
Ontem, 19, foi o Dia da Bandeira, um símbolo da Pátria, mas poucos se dão conta disso. Tampouco sabem que Brasil deveria significar República, nação organizada, um conjunto de valores e de ordem para servir à sociedade. E por que isso não acontece? Pelo nosso descivismo, descrença, desinformação e a presumida incapacidade de mudar as coisas que aí estão, como se tudo fosse fatalidade. Não é.
Fazemos sempre do mesmo jeito porque ainda não desenvolvemos a cidadania, não admitimos que nós é que transferimos a alguém a capacidade de cuidar dos nossos anseios, a responsabilidade de agir e decidir. Isso se faz pelo voto, um a um. Só isso. Não cobramos. E não damos o troco na hora certa. Apenas isso, nada mais.
Ao comparar, escolher, votar e eleger, estamos dizendo a uma pessoa que ela tem o nosso aval, autoridade e poder para agir. Ora, se a pessoa não age bem, se não fez aquilo que desejávamos, será tempo de mudar. Para isso é que existem eleições. Isso vale para o condomínio, clube, escola, associação de classe, cidade, estado e o País. Ninguém é insubstituível, especialmente se trata a coisa pública como se fosse um bem particular de que pode se apropriar e não tem o cuidado de escolher certo quem o acompanha. É simples, bem mais simples do que se pensa.
Não são a pompa e a posição que tornam uma pessoa digna, são os cuidados com o que faz, o modo como trata o que é coletivo e a sua responsabilidade social. Responsabilidade social não é modismo, é a consciência amplificada e tornada prática, coerente no dizer, sentir, viver e fazer.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/11/2005.

