Já faz alguns decênios que acompanho a trajetória de José Mindlin. O que me fazia curioso era entender a capacidade dele de ter sido empresário vitorioso e, ao mesmo tempo, intelectual consistente. Na verdade, o descendente de judeus russos, formado em Direito em São Paulo, foi sempre um ser múltiplo. Ao mesmo tempo em que conduzia com aprumo, desenvoltura e bom senso, a Metal Leve, empresa que comandou por dezenas de anos, ia consolidando a sua capacidade de leitura e, pouco a pouco, se transformando no maior amante de livros do Brasil.
Nesta semana, José Mindlin esteve por aqui para dar nome a comenda criada pela Sociedade Brasileira de Bibliófilos. Veio, acompanhado por sua filha Betty, e esteve em rodas com apreciadores de livros, com a sabedoria acumulada em seus produtivos 92 anos. Por pouco tempo, bem menos que gostaria, estive a seu lado. Era admiração explícita, adulta, sem inveja e com a certeza de que aquele era um momento raro. E nesse instante me encabulou a fala de José Macedo, outro longevo, fraterno e bravo empresário, ao apresentar-me a ele como “o Mindlin cearense”. Agradeço a referência do amigo José Macedo, mas nunca serei bibliófilo, tampouco intelectual, apenas misturo o construir realidades com o enlevo da leitura, dispersa e vária, vício antigo e incorrigível. Não tenho livros raros. Longe, bem longe disso.
Não há outros Mindlins por este Brasil. Quanto muito, há pessoas que vão se transformando em amantes de livro, ao mesmo tempo em que exercem outras atividades. Ser amante de livros é um processo, uma história longa que tem começo e não termina nunca. O bibliófilo é o amante depurado de livros. Não bastam as compulsões da compra. Valem a paciência na procura, o sonho da leitura e da posse, o tratamento que empresta à antiguidade da obra, a análise do seu conteúdo, a certeza do seu valor histórico e o básico de ser primeira edição, com ou sem anotações de seu primitivo dono.
José Mindlin se confessa leitor, em média, de 100 livros por ano. Lê a quase 80 anos, o que daria um total de 8.000 livros já lidos, mas tem uma biblioteca imensa de quase 30 mil títulos, o que torna clara a sua paixão, quase uma obsessão. Essa paixão não embotou a sua lucidez e permitiu que doasse à Universidade de São Paulo o seu acervo de obras chamado de “brasilianas”. A Biblioteca José Mindlin na USP tem 10 mil títulos e ocupará 10.000m2, o que já a torna um dos maiores centros difusores do conhecimento nacional.
Este contar aligeirado é apenas um assentamento de admiração e respeito.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/11/2005

