Adam Phillips é um psicanalista que, atualmente, coordena a tradução, para o inglês, das obras completas de Sigmund Freud. Consequentemente, Phillips tem escrito sobre memória. De seu último ensaio, “A Memória Forçada”, vou tentar, na medida da minha incompetência psicanalítica, tirar alguns trechos. Foi originariamente, publicado na revista “Index on Censorship” e, posteriormente, no caderno de cultura “Mais”, neste novembro.
Segundo ele, “Existe uma crença esperançosa sob o mito redentor da memória: a de aquilo que deve ser lembrado – desde que nos lembremos das coisas certas e da maneira certa -beneficia o nosso bem-estar e até mesmo a nossa virtude. Recordar, se o fizermos da maneira apropriada, nos dará as vidas que desejamos”.
Adam Phillips pretende demonstrar, parece ser, que muitas memórias não têm nada de espontaneidade histórica e, provavelmente, apaziguam sentimentos. Na verdade, a memória é aquilo que não se esquece espontaneamente e a história registra independente do passar do tempo. Reparem quando diz: “A memória pode até nos manter cordatos. Mas, na verdade, estamos conscientes, em área distinta de nossas mentes, que a memória seja mais virtuosa do que aqueles que a manifestam”.
E explica porque isso acontece: “Nosso medo (moderno) é o de que não obtenhamos sucesso no esquecimento ou de que o esquecimento não seja possível”. E vai em frente: “Fazer com que as pessoas recordem tende a presumir que seja possível calcular as respostas que terão às memórias. É uma tentativa de impor uma solução artificial, quando soluções artificiais são parte do problema. A recordação forçada – a absurda ideia de que seria possível aprender de cor a história pessoal e em uma visão correta – na verdade demonstra medo da história: um bem fundamentado temor de que o passado esteja sujeito a múltiplas e variadas interpretações”.
Dito isto, pois de memória entendo pouco, embora imagine ter sentimentos que guardo e preservo, lembro-me do que escreveu, dia desses, Carlos Heitor Cony: “Leitores, se os tenho, reclamam aos canais competentes dos assuntos que abordo em minhas crônicas, que não considero colunas, mas crônicas mesmo”.
Assim, falar de memórias, mesmo fazendo citações, pode até parecer que não seja crônica, mas talvez seja. E, para encerrar, uma de Gilberto Amado (A Chave de Salomão): “Todas as desgraças humanas vêm da memória. O homem junta-lhe ainda a inquietação do futuro.”
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/12/2005.

