BOAS FESTAS OU FELIZ NATAL?

Estão discutindo por este mundo afora, como se isso resolvesse alguma coisa, se devemos dizer Boas Festas ou Feliz Natal. Argumentam que, pelo menos, 30% da população do mundo não têm nada a ver com o mundo ocidental e cristão. Para eles, este tempo é uma quadra qualquer. E dizem que nós não celebramos Buda e Maomé. De qualquer modo, fico com as duas. Esses, os questionadores, os tais politicamente corretos, preferem Boas Festas.
Argumentam, repito, que nem todos acreditam na natividade, no menino que nasceu em Belém e já há mais de 2.000 anos mexe com a cabeça das cabeças. Mexe com o que temos de mais profundo, o que revelávamos ao padre confessor, no tempo em que isso existia da forma que era. Mexe ainda hoje, quando, meio cínico e meio crente, nos perguntamos como anda a nossa fé. Essa fé que, com altos e baixos, nos remete ao nosso eu mais denso, quando mergulhamos no mar dos nossos pensamentos, sonhos e palmilhamos a estrada do que já passou e ficou. E nos faz, quando faz, orar em silêncio, sem repetir fórmulas prontas.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com as festas, não essas a que somos obrigados a ir e todos já chegam com ar de enfado, o olho no relógio e a desculpa de que há ainda caminhos e caminhos a percorrer. As festas são os brilhos que saem dos nossos olhos quando estamos com gente que nos diz respeito, com quem o abraço não é uma pantomima, mas um halo de aconchego, um jeito seguro de ficar, sem que o tempo nos incomode. É festa quando as palavras não são policiadas e a delicadeza não é fruto de ensaio.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com o Feliz Natal, não pelos presentes, pelas árvores ou a alegria consumista, mas a certeza de que precisamos estar juntos, não por laços de engodo, mas pelo enlevo e a suspeita de que somos únicos, uns para os outros. Não só pela fé renovada ou combalida, mas pela esperança. E é essa esperança que nos chama ao convívio e à celebração, mesmo que tudo seja efêmero.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com as duas, pois não há como dissociá-las, embora algum leitor possa não acreditar nos meus sentimentos. A crença é o produto da confiança e da história de cada um. E neste dia de hoje, em que paramos e pairamos sobre as nossas diferenças, há como ter perspectiva de que o amanhã virá melhor se não dissimularmos o que sentimos. Assim, de verdade, Boas Festas e Feliz Natal.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/12/2005.

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