A JANELA DA VIDA

Em meio à quietude da tarde, por opção e prazer, abro o envelope, rompo o lacre e retiro o disco compacto que recebi de presente de José Arimatéia Santos, um homem que mexe há tanto tempo com grandes números e conservou a capacidade de ser simples. Ligo o som, coloco o CD, ajusto graves e agudos procurando qualidade, e associo-me à harmonia, melodia e ritmo tirados dos ajustes das cordas às cravelhas de violino, viola e violoncelo dos músicos do Quarteto Iguaçu. Os arcos de Oliver, Freitas, José Maria e Dany estão prontos e ressoam os primeiros acordes com arranjos de Ricardo Petracca. Fecho os olhos e deixo que os sons das cordas do quarteto se misturem ao vento que entra na janela do meu quarto. Nem todas as janelas são da vida, mas a música que ouço dá vida à janela pela qual vejo, em meio ao casario e tantos prédios, a singeleza da igrejinha de São Pedro, nesta tão bonita, intrigante, discutida e abandonada Praia de Iracema.
De princípio, veio Prelúdio ao Luar, certamente Pensando em Você, mas ainda dá para ver O Sol que Brilha no Mar. Se um dia não tivesse existido Isolete, penso eu, com a sua Mensagem de Amor, certamente não teria acontecido A Janela da Vida. Mas aconteceu. E José de Arimatéia é gente que troca a brisa do mar da cidade grande pelo calor e o amor à Guanacés, um lugarejo quase perdido no interior do Ceará, em Cascavel, onde espalha graça e esparge a sua benquerença com atitudes e afeto, levando saúde, instruindo jovens e formando banda de música. Mesmo não sendo compositor de carteira, pediu aos santos – que obrigatoriamente o acompanham até no nome – inspiração e Deus parece ter atendido nos sons aqui paridos e purificados por um quarteto no Paraná, capitaneado pelo músico cearense José Maria Magalhães Silva.
E enquanto O Pôr do Sol já se aproxima desta Ponte dos Ingleses, aqui nesta terra em que pouca gente ouve música com enlevo e sem remelexo, ecoa O Meu Ceará, com uma viola sofrida e bela. De repente, aparecem A Espera, Você Chegou. Paradoxalmente, acabou-se a espera. É hora d’ A Chegada. Até que enfim, pois o Crepúsculo vai caindo, permitindo que os acordes do Quarteto Iguaçu reavivem os sentimentos nesta tarde-noite em que os sons parecem dar mãos ao marulho das ondas que morrem e renascem nestas pedras e areias com ritmo essencial para dizer que tudo é possível. É, basta abrir a janela para a vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/01/2004.

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