Gosto muito de cinema e estou orgulhoso pelo fato do o Brasil ter quatro indicações (direção, roteiro, edição e fotografia) para a festa do Oscar deste ano. E ficaria muito mais se o filme escolhido não fosse ´Cidade de Deus´. Vi o filme de Fernando Meireles com atenção e respeito, mas confesso que não encontro razões para tanto incenso a uma produção que tem como base a banalização da violência, o uso do que se convencionou chamar de ´cosmética da fome´, no dizer da professora carioca, Ivana Bentes. Para ela, ´o filme vende uma imagem caricatural, de traficantes negros animalizados, assassinos por natureza.
Para ficar no passado recente, desde o filme ´Central do Brasil´, de Walter Salles, outro discípulo da ´cosmética da fome´, que o Brasil persegue as estatuetas do Oscar. O país mostrado nesses dois filmes é parte da realidade nacional, mas não é o que se poderia chamar de algo positivo ou alavancador da autoestima brasileira. São, ao contrário, denunciadores da desigualdade que temos e precisamos urgentemente reparar, mas não são bons produtos de exportação. Estão mais para a execração, ainda que lastreados em fatos reais.
A imagem brasileira, já tão desgastada e propositadamente aviltada por parte das elites dos países desenvolvidos, parece ser compartilhada por cineastas que a usam para retratar apenas aquilo que nos caracteriza como ´terceiro mundo´. Aqui não é nenhum paraíso, sabe-se disso. Tampouco o Brasil é uma grande ´Cidade de Deus´. Há muito argumento, além das favelas, o agreste esquálido do Nordeste e o crime organizado ou desorganizado, que são as motivações essenciais de quase todos os últimos filmes brasileiros.
Não se trata de esconder as nossas mazelas ou deixar de mostrar a face discriminatória de grande parte da sociedade brasileira. Mas há tantos outros ´brasis´ e enredos a serem mapeados para filmes de boa tessitura, que chega a parecer ranço ou aproveitamento esse renitente e repetido uso do que temos de mais feio, sob o ponto de vista estético, mais cruel, sob o aspecto social e segregacionista, na visão racial.
Se eu estiver errado, peço desculpas, mas seria bom que os filmes brasileiros fossem não apenas denunciadores das graves e grandes desigualdades sociais, mas, igualmente, tentassem melhorar a nossa imagem externa tão combalida, repito. Que venham as estatuetas, se possível, mas é urgente se rediscutir o enfoque da filmografia brasileira tão ciosa de apoios do governo e de mecenas, mas imbricada apenas com o lado ´noir´ de uma nação colorida e diversa que precisa respirar, viver e sonhar com ares menos catastróficos e densos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/02/2004.

