O amigo Edison Silva instiga: ´e aí não vai falar sobre o Dia das Mães?´ Claro que vou falar sobre o Dia das Mães, mas desejo fugir do estereótipo. Nós, homens nascidos ainda nos desvãos do Século XX, tendemos a ter apenas uma imagem romântica da mãe. Somos, na maioria, presos a padrões familiares que o tempo vai se encarregando de mudar. Imaginava-se, no tempo dos nossos pais e até bem pouco, que casar – e ser mãe – era o único destino de quase toda mulher. Ela vivia de ciclos: nascia, crescia, casava, paria, cuidava da casa e dos filhos, envelhecia e morria. De uns tempos para cá, a história mudou. A mulher estabeleceu, por suas próprias conquistas e méritos, parâmetros diferentes em sua relação com o homem. O homem deixou de ser ´o senhor marido´ e mantenedor. Passou a ser o companheiro, o parceiro e alguém com quem também disputa o mercado de trabalho. Negligenciada por milênios, a mulher se descobriu com instrução, percepção, talento e conhecimento para mudar, por sua conta e risco, a imagem recebida de suas avós e mães.
Hoje, lúcidas e ciosas de seus direitos, as mulheres já preferem até permanecer com seus nomes de solteira, programar filhos para o tempo em que achar certo, dividir as contas, casar – se for o caso – com separação de bens e viver uma relação mais honesta e clara. O amor deve durar o tempo que tiver que durar. E lutam para que seja duradouro. Os filhos, entretanto, não são mais joguetes para a sustentação de uma relação que, por várias razões, pode ter falido. Essa nova face da mãe é fruto da afinidade com o seu companheiro que deve se basear na cooperação, relacionamento, redistribuição de tarefas e encargos. Enfim, na comunicação que possa superar suas distinções de percepção e atuação, sem falar nas orgânicas e psíquicas que sempre existirão entre homem e mulher.
Não pensem que esta nova mãe não tem medos, fragilidades e sonhos. Os medos e fragilidades, ela tenta administrar. Os sonhos são vividos, mas cuida do real que está ali a pedir respostas e ações concretas de responsabilidade. Não pensem que ela não gosta de ser tratada como princesa, mas sabe que seu homem também tem o lado sapo. Não duvidem nunca de seu amor pelos filhos. Passará noite acordada a ninar a criança insone, mas cuidará também do seu dia, pois o trabalho é uma das bases da sua independência.
Esta constatação não é reparo ou agrado, mas a quase certeza de que essa nova mãe poderá ajudar a mudar a sociedade em que se viveu até agora, em que falsos padrões morais prevaleciam para manter aparências que, pouco a pouco, desmoronam.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/05/2004.

