A comemoração dos 55 anos do cronista Airton Monte, alardeado por ele e amigos, entre os quais ouso me incluir, dá mote para este artigo/crônica. Leva a que cada um dê um balanço nas amizades que vão surgindo desde o tempo de ‘pratrasmente’ até os dias da maturidade. E, nesse tempo todo, se conhece muita gente. Algumas, inexplicável ou explicavelmente, são eleitas como especiais. Esses, são os amigos. É uma espécie de seleção natural, não adianta forçar.
Amizade, de verdade, independe de tempo, duração, dinheiro, poder, sexo e circunstância. Ela é aquele realce espontâneo que a própria vida vai dando em algumas pessoas com as quais interagimos. Não pelo que têm ou são, mas pelo bem que provocam, pela empatia que surge e a confiança que se constrói sem medo. De repente, uma pessoa passa a ouvir você com mais atenção, entender os seus defeitos, reconhecer as suas razões, sem justificá-las, e cria-se o liame.
Certamente, as pessoas têm a tendência de privilegiar amizades com o sexo oposto. Isto não quer dizer que homem não possa ser amigo de homem e mulher de mulher. Claro que pode. O que vale na amizade é o selo do entendimento que não privilegia mentira, trama, desonestidade e interesse. É, acima de tudo, o enlevo de saber-se ligado, legitimado, sem ser usado, mesmo que exista distância e a louca vida que se vive limite os encontros.
Essas pessoas amigas são as que colocam água na fervura da nossa desventura, funcionam como moderadores e fazem ar de censura ou aprovação, muitas vezes sem precisar dizer uma palavra. Não é amigo o que fuxica, intriga, disputa, bajula, açula ou dá corda. O amigo tenta ser paciente, ponderado, mesmo se mordendo por dentro e já pense saber a resposta antes que o outro termine.
Ter amigos é, neste mundo cão, uma dádiva. São como escudos que nos protegem sem que estejamos presentes, têm conhecimento das nossas fraquezas, mas não tripudiam sobre elas. Ao contrário, nos transmitem a sua força. Pois bem, entre os poucos amigos escolhidos ou que a vida, com a sua mão imponderável, nos dá, há sempre um(a) que, em determinado momento ou situação, precisa de mais atenção. Essa é a hora de perceber isso e estar junto, sem precisar ser alertado ou cobrado. Daí ser sempre bom não alardear o que se faz, diz ou sente. Achegue-se sempre e deixe que a energia da benquerença possa transmitir, mesmo calada, os seus sentimentos e atitudes. O tempo sempre põe as coisas no lugar e a incerteza que é própria do estar vivo não deve nos afligir, mas consolidar raízes que deixam um legado de confiança mútua.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/05/2004.

