A primeira vez em que estive na Espanha foi em 1965. Data desse tempo a minha aligeirada iniciação a Miguel de Cervantes, o mais célebre escritor espanhol. Foi numa longa viagem de ônibus, cortando todo o país. Comprei, num sebo, um barato e velho exemplar de D.Quixote. Outras oportunidades vieram depois. Nenhuma, como a que fiz em outubro passado, em que por erros e acertos, novamente de ônibus, andei pela região da Mancha, onde a imaginação de Cervantes, no ano de 1604, foi plantar, em meio a moinhos, a figura de D.Quixote, um desengonçado cavaleiro que via além do que era permitido à época, em que a inquisição reinava. Parecia que estava vendo o esboço errático de D.Quixote nos arredores de Albacete.
Miguel de Cervantes tinha 57 anos em 1604, muita idade para a época, quando decidiu escrever D. Quixote. Já havia lutado, viajado, escrito, sido acusado e preso. Restavam-lhe uma mão, um pífio emprego e alguns fracassos literários. Parece que a sua desdita – literária e pessoal – foi o condão para criar uma prosaica história que se mantém viva 400 anos depois. Do seu gênio saiu o primeiro e um dos maiores romances da era moderna.
A história de D. Quixote é simples: um velho e exótico fidalgo de província que se contentava em ler histórias de cavalaria, resolve incorporar um herói e se descobre sonhador, apaixonado, perdido e desolado. Veste-se com uma ultrapassada armadura e uma lança e sai a defender uma utopia, guerreando contra as injustiças. Apanha muito, mas não desiste de seus sonhos, dentre eles o amor idealizado por uma camponesa (Dulcinéia), que ele acredita ser a mais bela das mulheres. Não adianta que o padre e o barbeiro queimem seus livros. Quixote resiste a tudo, monta em seu cavalo (Rocinonte) e consegue a parceria e a fidelidade de Sancho, uma espécie de contraponto para as suas tristezas, quimeras e desventuras. Ao final, é ferido em duelo com Carrasco, recolhe-se e agoniza sem o amor de Dulcinéia (“Quem tu és não importa, nem conheces o sonho em que nasceu a tua face”, Saramago). E, mesmo assim, antes de morrer, os seus delírios realçam a ilusão e a crença nos seus valores e utopia.
Pois bem, não é que D. Quixote e Cervantes foram, recentemente, tema central de um seminário (“A Justiça e D.Quixote”) entre juízes brasileiros no Rio de Janeiro, com a participação do Ministro Edson Vidigal, presidente do Superior Tribunal de Justiça, em que se rediscutiu a necessidade das pessoas manter utopias. Não basta a realidade crua e fria do dia-a-dia, é precisar sustentar acesos os sonhos, as utopias de combate à injustiça. E isso é bom, quando parte de juízes que precisam dar aos brasileiros alguma esperança em meio a tantos problemas reais que levam ao desencanto. Para o Ministro Edson Vidigal, “precisamos de um sonho para nos manter de pé. Por que então não sonhamos com um Brasil mais alegre, mais fraterno, mais desenvolvido e com menos sofrimento e ansiedade?”.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/2004.

