Os que nos conhecem verdadeiramente ou de perto, sabem que não somos profundos em nada. Somos, quando muito, curiosos, especialistas em uma coisa só ou, ao contrário, em generalidades. Lemos muito de algo ou um pouco de tudo e, consequentemente, não aprendemos muito. De qualquer modo, pinçando, aqui e ali, alguma coisa do que lemos e vivemos, somada à nossa (in)experiência, vamos repassando uns aos outros.
Um exemplo pessoal disso: faz cerca de vinte anos que procuramos ler sobre psicologia e psicanálise. Mera curiosidade ou seria acaso (Freud –ou Jung? – diz que não há acaso)? É um campo vasto, difícil, polêmico e apaixonante. Já andamos perpassando os olhos por Breuer, Freud, Jung, Melanie Klein, Lacan e, recentemente por Adam Phillips, um psicanalista inglês contemporâneo que escreve bem e fácil. A par disso, temos, aqui e ali, alguns amigos e conhecidos que são bons profissionais da área com os quais, eventualmente, trocamos ideias e livros.
Assim é com Thaís Oliveira, Laéria Fontenele, Airton Monte, Contardo Calligaris, Caterina Saboya, Malvine Kalcberg e Nadiá Ferreira, esse rol de gente que sabe o que diz e com quem temos, mesmo que eventualmente, o prazer de conversar, discutir, ler ou passar/receber e-mails. Não se trata de mera troca de figurinhas, mas prazer e curiosidade de saber ou aprender.
A esses, de uma forma ou de outra, procuramos atiçar com questionamentos teóricos ou falar sobre a vida e a morte de todos nós. Das correspondências, livros e artigos que escrevem, papos e telefonemas que trocamos, ousamos dizer que psicólogos, psiquiatras e psicanalistas não estão imunes a dramas e dilemas, do mesmo modo que ser da área de saúde não confere a ninguém garantia de bem-estar físico e, tampouco, os advogados vivem obrigatoriamente seguindo as leis. Somos todos, ao que parece, independente do que fazemos, passageiros dessa arca imensa, confusa e maravilhosa que é o existir, em meio a procelas. Clamamos por um porto ou um mero trapiche, mas parece que somos condenados ou eleitos a viver- e a morrer- longe da segurança da terra como terminaram os personagens centrais do livro de Gabriel Garcia Márquez, “Amor nos tempos do cólera”. E isto se tivermos a sorte de encontrar, no correr da vida, alguém que se arrisque a subir a escada bamboleante que leva à arca, onde marcamos encontro ou eventualmente nos achamos.
Daí que ninguém se sinta abatido por ficar triste ou com dificuldade, pois estamos, certamente, ou na arca ou, se em terra, entre vales e montes que nos levam para baixo e para cima, com ares diferentes, conforme correm os fatos, atos e a nossa parca filosofia concebem. Por outro lado, tanto a arca nas águas como a terra, com os seus vales e montes, podem propiciar visões e momentos breves ou longos de alegria e deleite que ainda nos fazem crer nas pessoas e no significado da vida.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/07/2004.

