Algumas pessoas perguntam por que, ao lado do meu nome aí no título, está a palavra escritor. Ora, certamente, porque estou exercendo aqui neste espaço o ofício de escrever. Não contentes com a resposta, alguns perguntam: mas você não é empresário? Sou, também. Ninguém tem que ter obrigatoriamente um só ofício, um só dom, um só problema e uma única solução. Todo o saber – ou a prática acumulada – vai sendo dirigida ao que se precisa para viver e também ao que nos dá prazer. Escrever, para mim, foi e é uma das atividades mais prazerosas. Tentei ser pianista, não consegui. Só pintei um quadro e fui um esportista de terceira categoria, até um braço quebrei jogando vôlei.
Agora, escrever foi um hábito que veio desde a adolescência, quando já lia muito, fazia diários e imaginava que escrevia crítica de cinema. De repente, estava formado e precisava cuidar de ser advogado ou administrador. Já tinha trabalhado em jornal e sido correspondente de uma revista. Optei por ser administrador e fui juntando a pouca experiência com muita pretensão e destemor. Sem que me desse conta, virei empresário. Foi duro, muito duro. Deus sabe.
Isso foi há 35 anos. Em março de 1969 era empresário com a coragem e a cara e, logo em maio, casei. A família é a base de tudo. No dia 31 de agosto do mesmo ano o Presidente Costa e Silva tiveram um derrame e assume uma junta Militar. O Brasil pára. E eu fico tonto. Decidem escolher Médici e o país volta a funcionar. Eu tento acompanhar o ritmo. Em 1974 o Gen. Geisel assume o poder, coincidindo com o fim do milagre econômico. Eu procuro entender e fico aturdido. De Geisel para cá já tivemos 09 presidentes (Geisel, Figueiredo, Tancredo, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula). Esses 09 presidentes já criaram 09 moedas diferentes, tivemos 05 planos econômicos e 18 ministros da Fazenda. Todos tinham a pretensão de salvar o Brasil e fizeram o que sabiam. Eu é que ia entendendo menos. Ora, com tanta confusão, crises econômicas, impostos novos e problemas para resolver, é preciso que um empresário – ou qualquer outra pessoa – procure uma válvula de escape. A minha sempre foi ler e escrever. Mania essa, como já disse, vinda de longe. Em meio a jornadas de trabalho de até três turnos, viagens de todas as naturezas e para quase todas as partes do mundo, o livro sempre foi a companhia indispensável. A par disso, ia escrevendo em máquinas de escrever, em todo pedaço de papel que encontrava, até que o computador pessoal entrou na minha vida. Sem querer – ou querendo – já faz mais de 20 anos que publico artigos, sempre aos domingos. O grande escritor Monteiro Lobato também era empresário e brigão. Tá explicado?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/2004

