LIVROS
Moacyr Scliar na bienal
Fui avisado, na semana passada, por uma das coordenadoras desta Bienal, que tinha sido escolhido para dialogar com Moacyr Scliar. Por que eu? João, deixe de conversa, será sexta-feira, dia 3, às 19 horas. Um beijo e desligou. Fico matutando e lembro que li recentemente uma pequena coleção chamada de “Vozes do Golpe”, da Companhia das Letras, e que um desses pequenos e preciosos quatro livros, era “Mãe Judia”, 1964, de Moacyr Scliar.
Certamente, o exercício a que se propôs Scliar é prova de sua reconhecida capacidade de transposição do real para o imaginário e, ao mesmo tempo, de misturar real e imaginário ao criar uma mãe doente mental, que se vê em um hospital psiquiátrico e passa a falar de seu filho desaparecido e da sua vida para uma capela vazia e é objeto de escuta psiquiátrica e política, pois a coisa vem de longe, não é de agora. Relembro de Max e os Felinos e, certamente, de O Centauro e o Jardim, entre outros. E claro, de suas gostosas e sarcásticas crônicas, das segundas feiras, na 2ª página do caderno Cotidiano, da Folha de São Paulo, do qual sou assinante há décadas.
Encabulado, ligo para a casa de Moacyr Scliar. Era fim de tarde. Ele está em meio a uma entrevista e falamos rapidamente. Digo, de saída, a verdade. Sou um mero escrevinhador amador de província e que tinha sido designado para um bate-papo com ele na Bienal. Ele responde rápido e vai retomar a sua entrevista.
É cobra criada e uma bienal a mais não fará diferença para ele. Para mim, sim, pois estava falando com um ficcionista do tamanho dos pampas com uma experiência literária que faz inveja a qualquer grande escritor latino americano.
Traduzido, entre outras línguas, em espanhol, inglês, alemão, holandês, sueco, francês e hebraico, Moacyr Scliar tem prêmios que dariam para tornar célebres muitos escritores. Um escritor para cada prêmio.
Quem tem os prêmios Joaquim Manoel de Macedo, Érico Veríssimo, Cidade de Porto Alegre, Guimarães Rosa, Brasília, Jaboti, Associação Paulista de Críticos de Arte, Casa de Las Américas, em Cuba, Pen Clube do Brasil, José Lins do Rego, este da Academia Brasileira de Letras, pode, e tem o direito, de ser consciente de sua capacidade literária e receber de todo o público brasileiro a consagração que merece.
E eu metido com ele. Imagina a minha perturbação.
Resolvo, de forma audaciosa, mandar um livro meu para ele por Sedex e, após três dias, ligo novamente. Ele ainda não havia recebido o livro. Falei da minha apreensão sobre o nosso bate-papo. Moacyr disse que não carecia de eu me preocupar. E eu tremendo de medo. Tudo bem. Chegou a hora.
Trocamos poucos e-mails e estou aqui nesta arena tal qual os cristãos lutando contra leões na Roma antiga. Seja o que Deus quiser.
Direi apenas, o que todos já sabem, Moacyr Jaime Scliar é uma das maiores referências da literatura brasileira dos últimos 30 anos e, certamente, esta é a razão básica de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, em 2003, com 35 votos entre 36 eleitores.
Sua história pode ser sumariada assim: Seus pais vieram da Besarábia para trabalhar em um projeto de colonização agrícola no interior do Rio Grande do Sul. Ocorre que o projeto já estava no fim e eles mudaram para Porto Alegre onde Moacyr Scliar nasceu no ano em que Vargas, seu conterrâneo, resolveu criar o Estado Novo, sob a inspiração do jurista Francisco Campos com toda a roupagem do fascismo que se instalava na Europa e começava a fustigar os judeus e toda a humanidade.
A família morava no Bairro do Bom Fim, área de imigrantes, e Moacyr, além dos ensinamentos básicos recebidos de sua mãe, foi estudar, em 1943, na Escola Iídiche, que viria a ser futuramente o Colégio Israelita Brasileiro. Em seguida, em 1948, Scliar é transferido por sua família para um educandário católico, o Colégio Rosário. Menino, já era o escritor da família e do seu bairro, pois tudo colocava no papel, de pão que fosse.
Em 1955, entra na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de onde sai formado no ano em que o seu conterrâneo João Goulart comemorava o primeiro ano de governo. Mal sabia ele o que viria depois.
Diploma na mão e já com um primeiro livro pronto, “Histórias de um Médico em Formação”, em que conta a sua experiência acadêmica.
Ingressa no SAMDU, uma instituição médica pública que a Revolução resolveu extinguir. Especializa-se em saúde pública com ênfase em medicina sanitária. A sua vocação de médico, exercida em plenitude, o fez estudar a vida e a obra de Noel Nutels e Oswaldo Cruz. Desse estudo, saíram dois livros.
A partir de 68, o ano que antecedeu o Ato Institucional nº 05, surgiu “O Carnaval dos Animais” e não parou até hoje. São quase 70 livros entre romances, novelas, contos, ficção juvenil e ensaios, expostos nas livrarias da Bienal do Livro do Ceará que teve a honra de recebê-lo sexta à noite.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/09/2004.

