Costumo ler quando viajo em aviões. E, naturalmente, procuro ver o que os passageiros ao alcance da minha vista estão lendo. Nas viagens de curta duração há uma tendência para a leitura de jornais e revistas da semana, distribuídos pelos comissários. A maioria folheia e passa pouco tempo lendo. Depois, vêm as revistas das próprias companhias aéreas. Elas são bem diagramadas, geralmente bilíngues com propagandas de bens e artigos finos. Trazem matérias leves, bem-humoradas e, quase sempre, mostram assuntos de moda, variedades e fotos em profusão em reportagens sobre cidades onde há escalas ou interesses. Nessas revistas, há espaços para cronistas consagrados que, com sutileza, tentam distrair os passageiros do medo de viajar, dos raros vácuos, da proibição de fumar, cintos atados e até do gordo vizinho que teima em aboletar-se do braço da poltrona que, imaginávamos, seria nosso.
Nos voos de ponte-aérea é comum a leitura de relatórios empresariais, uso de notebooks, e a preparação de agenda de trabalho. Nos voos longos aí a coisa fica mais nítida, e se descobre quem realmente gosta de ler. É raro, mas há pessoas que leem romances e ensaios. Essas são as que se fecham e se isolam. Geralmente usam óculos e, quase sempre, são maiores de 30 anos. Não sei dizer se a maioria dos leitores é constituída por homens ou mulheres, considerando que cerca de 60 a 70% dos passageiros, via de regra, é formada por homens a trabalho. Mas não é raro mulheres executivas, com pretinhos básicos ou blazers, lendo, mexendo em suas geringonças eletrônicas ou, distraidamente, folheando revistas de fofocas com celebridades ou emergentes.
Como o avião ainda é um meio de transporte teoricamente elitista, fácil é a constatação de que o brasileiro escolarizado não é muito chegado à leitura, mesmo descontando o tédio de ficar algumas horas no ambiente confinado, poluído e comunitário de uma cabine fechada em que sons e odores se misturam com o ar seco e artificial. No último voo que fiz, em uma escala, esqueceram, na poltrona vizinha, algumas revistas dais quais eu nunca tinha ouvido falar: Up Date, Revista Mensal da Câmara Americana de Comércio; B2B (computação em ambiente de negócios); IC World, publicação da Siemens sobre informação e comunicação; Ao lado de títulos técnicos como estes, um horóscopo chinês e um mapa astral de pessoa bastante conhecida, anunciando que poderia morrer em acidente. Ainda bem que ela não estava no voo.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/2004

