Por um desses acasos, na virada do ano, estive em Paris. Relembrei Hemingway no livro ´Paris é uma festa´. Preparado para a noite fria, misturei-me à multidão na vasta região que fica entre a Av. Champs-Elysées e a Torre Eiffel. Táxi, nem pensar. O jeito foi mergulhar na estação George V e emergir do metrô superlotado em Bir Hakeim perto do Trocadero ao pé da obra de Gustave Eiffel. Na noite do dia 31 de dezembro os metrôs de Paris são gratuitos, pois não há possibilidade de controlar a multidão e os táxis somem. Há policiais de carro, moto, bicicleta e todos ficam atentos, mas distantes.
Restaurantes cheios, gente de todo o mundo e uma turba imensa soltando fogos de artifício, bebendo, esquecendo a baixa temperatura que sombreava a noite, mas deixava resplandecer os lampiões e a iluminação especial que adornava a torre de mais de 300 metros de altura. Depois do jantar gostoso, cheguei à base da torre onde camelôs vendiam brincos e colares fosforescentes, bebidas e comidas. Foi então que descobri que grande parte do povo na rua parecia de origem muçulmana ou africana. As roupas coloridas, a cor da pele, as famílias com muitas crianças sendo puxadas por pais severos, o som característico das suas línguas denunciavam a ´invasão´ turística ou permanente tão reclamada pelos franceses. ´A França é dos franceses´, dizem os xenófobos, mas não haverá lei, tratado ou força militar que consiga mais desentranhar dali os que chegam ou vieram das antigas colônias e se apropriam da metrópole, repetindo sem saber, o que dizia o socialista utópico francês Proudhon ser a propriedade um roubo.
À meia-noite não houve contagem regressiva. Cada qual viu em sua própria hora chegar o novo ano e os fogos que nem de longe lembravam Copacabana ou qualquer grande cidade brasileira coloriam a noite de forma tímida, enquanto garrafas vazias de champanha entulhavam os canteiros e até desciam para repouso nas águas do Sena. Pouco a pouco, como se houvesse uma chamada geral, as pessoas foram se dispersando. Os mais afoitos e liberados se cumprimentavam, trocavam abraços e se beijavam. Era 2003 e o jeito foi pagar mais euros que o devido a um taxista que, usando o seu carro particular, aproveitava a oportunidade, para garantir a compra dos queijos que, certamente, comeria na manhã do novo ano que já despontava.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/01/2003.

