PORTUGAL DO EURO

Revi Portugal. Todo viajante leva uma mala com roupas e outra, invisível, com a sua história, seus preconceitos. Não sou diferente. Portugal, para mim, é um país ainda a ser descoberto. Por mais que tenha estado lá, pouco entendo de seu ritmo, da essência do seu povo, da cultura de seus autores consagrados e da que exala de seus sobrados, monumentos, mosteiros e igrejas. Não entendo, mas tento.
A primeira vez que estive em Portugal foi em 1965. Nessa época reinava a ditadura de Antônio Salazar e as cidades portuguesas pareciam tristes como o andamento do fado e a roupa preta das mulheres. Nem a língua comum permitia ouvir dos portugueses o pulsar real de suas queixas. Ela se fecha em lamentos surdos e pouco se extrai da dor –nostalgia- avassaladora que parece ser a sua essência. Como se a dor alimentasse o semblante quase sempre carregado.
Quando da Revolução dos Cravos, em 1974, estive por lá e fiquei alegre por ver em Mário Soares um sopro da redescoberta intrauterina de Portugal. Parecia uma catarse coletiva e o país despedia-se da era salazarista à procura de uma nova identidade. Voltei outras vezes e vi nas décadas de 80 e 90 que o país tentava esquecer o ultramar perdido e abria-se para a Europa, sendo visto pelos países ricos como novo destino turístico, campo crescente para a implantação de indústrias, até culminar com a sua entrada na Comunidade Europeia em 1986.
Foram feitas privatizações. As multinacionais baixaram em Portugal e saíram comprando o que podiam. Grandes grupos portugueses se consolidaram. Aí parece ter ocorrido um erro de perspectiva. Com dinheiro fácil para novos negócios o país foi ficando endividado e, hoje, neste inverno de 2003, revi Lisboa como uma cidade mais moderna, com as reformas introduzidas para a realização da Expo-98 com o belo e grandioso Parque da Exposição, mas com um certo ar de recessão.
A euforia parece ceder, novamente, ao lamento e há até quem diga que o Euro, introduzido em 1999, não tenha feito bem a algumas pessoas que teimam em raciocinar em escudos e contos de réis. O choque da europeização de Portugal ainda é um fenômeno novo, mas o fado parece voltar a ter sentido, pois se reacendem os sentimentos de pesar, como se o progresso tivesse minado a alma de quase todos. Os preços subiram e o rico dinheirinho que era mandado de volta para as famílias pelos emigrados porteiros, motoristas, governantas, recepcionistas e garçons espalhados por toda a Europa rica não tem mais o encanto de outrora.
Disse, no início, não conhecer bem a essência da alma portuguesa, mas retrato o visto e ouvido nas minhas andanças pelo velho Chiado, a Baixa e tantos outros lugares. E o faço com o que tenho de Caminha e Soares no sangue. Gostaria de estar errado.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2003.

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