A PRIMAVERA DA AMÉRICA

Sou uma espécie de peregrino sem caminho preestabelecido. Penso estar aqui e me surpreendo voando. Não que voar seja o meu fraco, pois não sou alado e tenho que me render aos aviões. Dois voos após, estava na América. Na América pós-Iraque, nestes feriados da Páscoa emendados com Tiradentes. Por desligamento, entrei na imigração na fila dos americanos. Pedi desculpa e ia saindo. O agente que estava atendendo riu e disse: fique. Mostrei o passaporte e eu fui quem fez perguntas sobre o seu sobrenome não americano grafado no crachá. Falou-me dos pais imigrantes, carimbou o passaporte e deu votos de boas-vindas. Estava na América de Bush. Na terra em que de cada dez carros, pelo menos quatro, portam bandeiras americanas. Onde os prédios públicos e privados e as escolas vivem uma febre patriótica exacerbada. Paciência, as eleições americanas foram o que foram. Eles são assim, pensam que pensam certo e agem errado, até, vá lá, por boa-fé.
Saí do aeroporto e me dei conta da primavera que iluminava o sol, mas deixava ainda um friozinho na pele. Peguei a estrada. Tinha milhas e milhas a percorrer e promessas a cumprir antes de dormir, como diria Robert Frost. Duzentos e oitenta milhas depois estava na casa de amigos, por quem o meu coração clamava. Casa grande, bonita, quase centenária em uma pequena e nobre alameda de apenas duzentos metros, povoada de árvores frondosas que pareciam chorar pelas galhas. No pórtico: duas bandeiras. Uma americana, outra brasileira. Ainda bem. Limpei os pés e toquei a campainha. Era hora de estar lá. Sem promessas, mas com a espada da benquerença desembainhada. Falamos tanto, como se houvesse uma guerra ao silêncio que cercava o medo. Falamos sem peias, expressando tudo. E o passado se fez ali para, mesmo que em vão, descobrirmos as origens das feridas sorrateiras a corroer o corpo quando a alma silencia.
Éramos irmãos, mesmo que de países diferentes, falando de coisas sérias e duras com uma candura imprópria a homens maduros. Só as árvores testemunhavam o nosso entendimento à beira da hora da verdade. Após tudo ter sido dito, passamos a ser três. Achegou-se a irmã de sangue, embora prenhe de costumes americanos. Sabíamos que podíamos escancarar a alma e que ninguém estava ali por acaso. Ali fui levado pela linguagem da alma. Não tinha nada a dar, mas precisava ir. Era tempo de chegar, da adição do olho no olho. Do aperto de mão verdadeiro, do conforto mútuo e da consciência de que estávamos prontos, mesmo sem saber para que. A vida põe âncoras em pessoas em portos não escolhidos e vai-se gastando o tempo da ampulheta do destino quando surgem os terremotos. Mas os que se respeitam e creem no que fazem, logo encontram o chão firme e não têm receio do vazio. Há sempre plenitude na racionalização e no emaranhado de sentimentos que teimam em florescer.
Fez-se hora de voltar. Nada é permanente, a não ser a efemeridade do instante. Tudo fora dito e sabíamos que voltarei qualquer hora dessas, desejando seja novamente primavera e as bandeiras, as duas, ali continuem.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/04/2003.

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