ENTREGA À MÃE-TERRA

Voltei mais rápido que esperava e desejava. As bandeiras me chamaram. Estava, novamente, na terra do chapéu Stetson e aonde foi selada a vitória de Bush sobre Gore. Foi agora em maio e eu me lembrei, mesmo sem querer, da entrega do Oscar deste ano, quando um americano meio fora do padrão, Michael Moore, ganhou a estatueta de melhor documentário com o filme “Tiros em Columbine”, brandindo horrores contra o Sistema americano por ser uma nação louca por armas. A América é muito complexa para ser descrita em um só filme. É um país tão multifacetado que cabe não só em “Tiros em Columbine”, como no filme “Pães e Rosas” e em tantos outros.
Voltava às pressas, a chamado de sentimentos. Os mesmos voos, a mesma estrada, as mesmas árvores, a rua tranquila. Faltavam as bandeiras americana e brasileira. O pórtico estava apenas com os aros. As bandeiras haviam sido retiradas. Estavam em outro lugar. E foi para lá que fui.
Era uma igreja católica. Bonita, moderna. Estrutura de aço, mas toda recoberta por madeira. Parecendo ser o que não era. Ou era o que não parecia. Lá estavam as bandeiras, lado a lado. De pé. A diferença é que havia alguém deitado para sempre e outra tentando, com todas as suas forças, manter-se de pé. Um padre jovem, alto, bem-apessoado, de voz canora, fazia às vezes da casa. Houve cânticos, discursos, rosário, missa de corpo presente, música sacra, gaitas irlandesas, encomendação e a gentileza dos homens de preto que cuidavam de tudo.
Era chegada a hora de tomar outra estrada, afinal. Partimos para a cidade onde Jeb Bush trabalha. Chegamos à noite e, em poucas horas, novamente, uma igreja. Desta vez ela era americana assumida, batista, inflável, de plástico, climatizada e poderia ser também uma quadra esportiva. As bandeiras já estavam lá. Haviam sido transportadas. Houve mais preces, cânticos e até um longo discurso do Procurador Geral do Estado. Reminiscências. A música cessou e apareceu a limusine. Sem limusine não estaria encerrada a participação dos homens obrigados a estar ali. Tomamos a limusine. Gente das duas bandeiras. Vimos a estrada nos levando para uma floresta bonita. A limusine fez uma curva, saiu da estrada, e parou. Pisávamos em chão batido. Descemos e ficamos em posição. Éramos das duas bandeiras. Estávamos ali para entregar à mãe-terra alguém que quis ficar em meio a ciprestes e a seus ancestrais, fora da estrada e ao reencontro de sua verdadeira natureza. Pássaros cantaram e saímos silentes.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/05/2003

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