DISCURSOS E IMAGENS DE PRESIDENTE

Quem viveu ou estudou os anos 60/70 na América Latina sabe que era comum o tratamento ´companheiro´ entre os jovens e militantes de esquerda. Vieram os anos de repressão, a clandestinidade, as guerrilhas e a volta gradual à democracia.
Quem viveu ou estudou os anos 60/70 no mundo sabe da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, da guerra do Vietnã e da intensa propaganda feita por Moscou e Washington para demonstrar isso ou aquilo.
A queda do muro de Berlim em 89 e o esfacelamento da União Soviética nos anos 90 tornaram a balança favorável aos Estados Unidos. Esse fato não fez diminuir a existência de grupos e correntes de esquerda na América Latina e a expressão ´companheiros´ continuou em voga.
Ano 2003, Brasil. Um antigo companheiro chega à Presidência da República. Assume com um apoio popular imenso, enquanto a credibilidade externa do país está em baixa. Em seis meses de governo pode ter sido o Presidente que mais tenha feito discursos. É natural que um político que criou e viu crescer o Partido dos Trabalhadores até chegar ao poder, tenha ânsia de dizer a que veio, o que pretende e o que espera de políticos e da sociedade. Por outro lado, mais natural ainda é que os seus assessores, que se esmeram em apresentá-lo bem vestido e cuidado, tenham a coragem de dizer-lhe que já é tempo de participar de menos reuniões. Qualquer assessor presidencial sabe que o chefe da Nação é o ´Primeiro Magistrado´. O que quer dizer isso? Que a pessoa que ocupa os palácios da Alvorada e do Planalto é o delegado de todos nós para governar e distribuir justiça.
O discurso não deve ser o foco. O foco é a governabilidade e a distribuição da justiça sem precisar, por exemplo, vestir a camisa de times de futebol, receber misses ou usar bonés seja de quem for. Alguém precisa ser mais leal ao Presidente. Lealdade não passa pela subserviência e a aprovação popular não deve ser entendida como aval para dissipar o tempo em cerimônias e viagens que podem ser evitadas. O Presidente tem ministros e assessores e esses são, naturalmente, seus representantes nessas solenidades menores. O Presidente deveria ser mais resguardado para manter incólume a credibilidade que granjeou em meio à esperança de todos.
O Brasil precisa sair mais do noticiário. A imprensa brasileira atual, especialmente a da televisão, só tem duas vertentes: a denúncia e o governo. A mídia deveria ser mais responsável e criativa. Ao invés de espalhar maledicência e flagrar o presidente comendo um biscoito ou falando de sua mulher, deveria estar preocupada em melhorar a qualidade do que informa, pagar seus impostos e ver o Brasil não como um produto, mas como um país a ser respeitado.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/07/2003.

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