Sergio Braga trabalha em uma sala entulhada de livros. Aos sábados, a sala se transforma em ponto de encontro de gente que gosta de conversar, ler, escrever e até tocar. Em meio a tudo isso, circulam capotes, galinhas e peixes, todos devidamente mortos e prontos para serem deglutidos. Não há hierarquia, embora circule gente que comanda o Estado, poeta, crônica, pinta, caricatura e, repito, toca. No sábado, 2, deste, Nonato Luiz estava por lá sem instrumento de trabalho. Sergio aviou um Di Georgio desafinado e lá se foi Nonato Luiz dar o seu jeito às cordas.
Enquanto isso, o instiguei a pensar na hipótese de só tocar três compositores. Após eles, o dilúvio. Nonato escolheu: Haendel, Villa Lobos e Baden Powell. E o fez com a maestria de sempre, como se os acordes que aprendeu em Lavras da Mangabeira tivessem, por mimetismo, se assenhoreado de um andamento andaluz ou mouro. No instante em cada melodia era tocada, peguei um pedaço e fiz breves anotações: Haendel – Sentados, sentidos e postos. O violão decola e entre na história. Parte de Haendel e tira da corda o que o saber evoca e recorda. Faz-se pausado, cadência vária e a sala vira santuário, um oratório. Como se os livros fossem mudos instrumentos uníssonos. E os pés silentes deixam que as mãos falem. E falam fundo, profundo, como se existisse um mundo barroco e um vale na floresta negra em pleno dia de sol e ventos cearenses. Villa Lobos – chega Heitor e não traz uma matilha de lobos, nem as bachianas. Constrói uma vida de acordes e nos desperta da barbárie, fazendo-nos meditar quão grande tolice seria o mundo sem a música, ela que nos extasia e mexe até com o que imaginávamos não mais escutar, nem os cantos da floresta tropical.
Baden Powell – não foi e nem é um escoteiro, mas cria, escolta e revolta a afro-música brasileira que, em meio a dissonantes, se transformam afinados em berimbau em que a corda esticada e marcar dolente parecem mostrar a negritude das origens e o banzo que nos acode nas aflições do amor.
João Soares Neto
Da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/08/2003.

