Estava eu com um artigo pronto para este domingo sobre o 2o. Aniversário do 11 de setembro de 2001. No ano passado escrevi um livro – ´Sobre a Gênese e o Caos´ – no qual, sob a forma de contos, especulo as reações pessoais dos envolvidos nas tragédias dos atentados à nação norte-americana. Iria dizer o pensado e o ainda a pensar sobre a gênese e o caos decorrentes. Porém, em telefonema com um amigo, tomo consciência do drama de uma família perdendo seu chefe pela impossibilidade de fazer transplante de rim. Decido, então, abordar este caos, na esperança da eclosão de uma nova gênese.
Há uma culpa coletiva nesta história. Mesmo que já tenham sido definidos em lei a forma e os procedimentos necessários ao recebimento de órgãos por doadores mortos. Há uma ausência de responsabilidade social dos principais agentes. Poderiam motivar as pessoas para deixarem determinado por escrito: eu sou doador(a). Igualmente, deveriam ser conscientizadas as famílias de pessoas com morte cerebral não ser a doação uma mutilação do corpo, mas a dignificação da vida transmudada.
Os órgãos encarregados da saúde pública, a imprensa -como está fazendo o SVM-, as igrejas, os clubes de serviços, as escolas, as universidades, as forças armadas, as entidades patronais e sindicais deveriam procurar divulgar de todas as formas possíveis o que significa ser doador(a). Apegos, desinformações e até ignorância podem estar bloqueando desejos latentes de fraternidade e até de caridade. Doar órgãos pode poupar vidas de pessoas acometidas de doenças curáveis ou controláveis, morrendo pela indiferença de parte da sociedade que tanto cobra e pouco dá.
Sou doador universal e deixo isso, mais uma vez, bem claro neste artigo. De que me servirão órgãos se estiver com morte cerebral comprovada? Cada pessoa, independente de suas crenças religiosas e idade, deveria fazer uma reflexão sobre o significado de ser doador, não só por se sentir mais digno, mas como contraprestação à natureza transformadora de um mero gameta em ser vivo, partícipe do milagre da existência, maravilhando-se a cada dia com o nascer do sol, a possibilidade de respirar livremente, se locomover, amar, procriar, progredir e, naturalmente, morrer. Não como uma punição, mas como coroamento de um ciclo a se fechar. Fechar sim, para os não-doadores, pois os doadores se perpetuarão em novas vidas alegrando famílias por seus gestos de desprendimento. Acredite, doar pode ser uma nova gênese.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/09/2003.

