As experiências das empresas no campo da ´responsabilidade social´ não deveriam decorrer de atos generosos, mas da consciência de que é preciso retribuir o que a sociedade lhes confere, independente do rótulo novo. Há empresa que, muito antes da obrigatoriedade dos vales-transportes, já financiava bicicletas, veículos e mantinha ônibus para transporte de seu pessoal. Paralelo a isso, construiu casas em vila operária, servidas por energia elétrica, água da concessionária, telefone público, parque infantil e escola. Todos seus empregados recebem, pelo menos, uma cesta básica por mês, são segurados (inclusive os cônjuges) e participam de planos de saúde.
Essas ações internas, feitas sem alardes, motivam ações externas para difundir a arte, como um concurso público entre pintores e escultores julgados por dois júris (um popular e um formado por críticos), concedendo dois prêmios: uma viagem aos Estados Unidos e outra à Europa. A empresa também desempenha sua responsabilidade social nas áreas da cultura e da solidariedade com carentes, assistidos e reunidos em ONGs e organizações sociais. Entre outras ações, destaca-se hoje a assistência a pessoas com mais de 55 anos que têm direito a preços diferenciados e participam de reuniões mensais onde são ministrados cursos, palestras, e sessões de motivação. Outra experiência que merece destaque na área é um projeto de solidariedade permanente, renovável todos os meses, em que são distribuídos gêneros não perecíveis, brinquedos e roupas, arrecadados de seus empregados e clientes, a entidades reconhecidamente sérias.
O importante é que os diversos setores da sociedade estão redefinindo seus papéis. As empresas, adotando um compromisso socialmente responsável, são agentes de mudança para, juntamente com Estados e sociedade civil, construírem um mundo melhor. Esse comportamento é caracterizado por uma coerência ética nas suas ações e relações com os diversos públicos com os quais interage, contribuindo para o desenvolvimento contínuo das pessoas, das comunidades e de suas relações entre si e com o meio ambiente. A responsabilidade social deixou pois, de ser uma alternativa, para se tornar um componente estratégico na política das empresas. E a principal tendência que se vem delineando nos últimos anos desafia as empresas a adotarem uma postura de responsabilidade social desfocada dos seus objetivos econômicos e essenciais. Isso evita que a imagem da empresa e seus valores sejam confundidos como simples propaganda, superando antigos paradigmas de lucratividade, para, então, viabilizar uma postura cidadã integrada ao processo de desenvolvimento social do país e especialmente dos locais onde exerce a sua atividade.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/10/2003.

