OLHAR MATUTINO OU DE COMO OS OLHOS PASSEIAM

As janelas estão orvalhadas. O dia está tímido e o sol ainda se espreguiça entre as nuvens que teimam em acobertá-lo.
A cidade está muda. Os raros notívagos embebecidos e pouco embevecidos passam com as suas garrafas tão vazias quanto a solidão que os acompanha. As moças do atacado – ou seria do varejo – dão as últimas passadas metidas em saias mínimas, com seus toscos e cambaios sapatos altos e a pintura desbotada.
Um quitandeiro noturno recolhe a sua mesa e cadeiras de plástico enquanto conversa com desocupados. Boceja, arruma tudo em uma tralha, põe as mãos nos quadris e toca o bolso, talvez assegurando que o minguado dinheirinho está lá. Uma geladeira usada virou um trenó, uma espécie de ´rosebud´ de sua maturidade sem perspectivas.
Aqui do lado, na pracinha vazia de almas, pássaros pequenos entoam, em bloco, uma louvação à manhã, como se as nervuras de nuvens trapaceassem com eles que clamam sem êxito pelo fulgor do sol.
Um táxi branco passa vagarosamente à cata de passageiros e dois mototaxistas ficam à espreita, como se disputassem o que não vem.
Há telhas sujas, cobertas dignas de um pardieiro e os edifícios altos quedam-se sem luzes aparentes. Do outro lado, o mar faz a sua tarefa contínua de ir e vir trazer água salgada, envolta em brancos filós, às pedras que impedem sua passagem, mas recebem beijos molhados com a sua frieza estrutural. O mar ainda está gris e só uma bamboleante jangada se aventura nesta manhã ainda infantil de um sábado que já ouviu o repicar das seis badaladas.
Um homem gordo, de velhas bermudas caqui e camisa rosa, pita um cigarro na sacada de seu prédio. Dá a última baforada, mostra que não tem civilidade e recolhe-se, deixando a porta entreaberta como a esperar a felicidade que talvez persiga.
Aqui bem perto tem gente que amo. Um pouco mais na frente, também. E andando-se na mesma trilha, outras amadas estão a dormir ou voaram de seus leitos para paragens várias. É assim. Minha força de amar tem tristezas, mas o sol está perdendo a timidez e eu revolvo e renovo sentimentos.
Meus olhos voltam-se para onde estou e após escrever o ponto, farei gestos mecânicos obedecendo a um ritual tecnológico que incorporei e desliga-me da máquina que, paradoxalmente, dá sentido humano ao letramento produzido.

João Soares Neto
Da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/10/2003.

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