Andei pelas terras de Castilla neste outono chuvoso e quase frio de meados de outubro. Não montava o ´Rocinante´, tampouco estava atrás de uma ´Dulcinéia´, mas percorri a região que serviu de palco imaginário para a obra de Miguel de Cervantes. Foram 750 km, entre ir e vir, e descobri que os moinhos de ventos só existem agora nas duas partes do romance Dom Quixote, escrito entre 1605 e 1615 e que hoje faz parte da boa literatura universal.
Passei – e parei – por Toledo, patrimônio histórico da humanidade, tão linda com sua mistura de influência espanhola e moura, circundei o rio Tajo, que é o nosso Tejo português, e tomei a estrada moderna, sinalizada e sem pedágios que dá acesso a Albacete, nosso destino naquele dia.
Chovia, o sol era tímido e o ar montanhoso mostrava uma região inóspita, tal qual o Nordeste brasileiro. As pedras afloram do chão e a vegetação não consegue esconder que suas raízes sofrem ao penetrar no solo rochoso. Ovelhas lanzudas pastam como em uma eterna espera pelas diatribes de Sancho Pança, fiel escudeiro e servidor do cavaleiro Quixote.
Próximo a Albacete o sol reaparece e mostra que moinhos novos estão surgindo nos morros a 1.000m acima do nível do mar. São quase 200 aerogeradores imensos, com 54m de altura, captando a energia eólica e a transformando em riqueza para acionar o desenvolvimento da Espanha arvorada, com sucesso, a pertencer ao time das nações desenvolvidas. Fecho os olhos e penso nos ventos cearenses tão fortes quanto inaproveitados. É bem verdade que já temos alguns aerogeradores espalhados pelo Titanzinho, na entrada da Prainha, e na Taíba. Mas são tão poucos, quase nada em frente à realidade que ora vejo no silêncio desta tarde que me molha o corpo, mas não impede que o meu espírito continue a sonhar, tal qual um Quixote, por um Ceará em que as suas potencialidades sejam aproveitadas, sem que sucumbamos no mar de vaidades e quase nenhuma ação.
E por tal razão é que nesse dia tive a alegria de alinhavar palavras em papel para tentar sedimentar, mediante um protocolo de intenções, com a Universidade de Castilla – La Mancha e a Federação das Indústrias do Ceará, uma perspectiva de criação em Fortaleza de um Instituto de Energia Renovável com a absorção de tecnologia que transforme os nossos ventos na riqueza tão necessária para que não se percam como os sonhos mirabolantes de Dom Quixote.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2003.

