RACHEL E O ATO DE ESCREVER

Terça-feira, manhã cedo. O telefone toca. É Natércia Campos quem me relata o telefonema recebido, minutos antes, da amiga Maria Luiza de Queiroz. A irmã de Raquel fala de sua última noite, insone como que conversando com os seus mortos queridos. Aquietara-se só às cinco horas e às seis já havia partido, sem lamentos ou ais, como a cearense forte que sempre foi. Não há meios de entender a hora da morte, mas há sentido em louvar a vida. Rachel com ch. Ch de chama: o fogo que a incendiou e que deu luz à liberdade intelectual da mulher. Ao gerar “O Quinze” em 1930, com 20 anos, decretava o fim da submissão literária das que haviam nascido apenas para estudar, casar e cuidar da família. Rachel foi chamego de seus leitores e chama que ainda ardia aos 93 anos. Fez-se grande com seu jeito simples, direto e sábio de dizer o que pensava, em entrevistas, crônicas e romances conhecidos de todos. Sem alardes, mas com a têmpera dos que esperam a justiça dos homens, foi a primeira mulher a entrar, em 1977, na, até então machista, Academia Brasileira de Letras.
Rachel não era produto da mídia. Ela era a mídia. Não era uma marqueteira, mas produto de sua competência. Não bajulava, era bajulada, mesmo contra a sua vontade. Não era objeto de contemplação, mas um caniço ou baobá, dependendo das circunstâncias, com raízes fincadas em dores sentidas, em vitórias alcançadas e saudades acalentadas. Era tripartida: Fortaleza, onde deixou o seu umbigo; Quixadá, onde assentou seu coração; e o Rio, onde pousou seu corpo por mais tempo e para o sempre.
Não vou apreciar a obra literária de Rachel. Quase todos já leram O Quinze, As Três Marias, Caminhos de Pedras, Dora Doralina e Memorial de Maria Moura, para ficar nos trabalhos mais consagrados. Prefiro reverenciá-la. Curvo-me à sua face expressiva de cronista, quando fala com propriedade do ato de ler e do ofício de escrever.
Em crônica intitulada “Escrever”, publicada em 2000, no jornal “O Estado de S.Paulo”, Rachel assevera: “Existe ainda uma outra maneira de ver estimulada a vocação literária dos jovens: é uma casa aberta onde todo mundo lê, o bom e o ruim, mas onde igualmente todo mundo tem direito à crítica, a falar o que pensa sobre a produção de pais, irmãos, tios e visitas íntimas, numa espécie de tribunal literário exercido à mesa de jantar. E sobre escrever de verdade, ela assevera: “Mas voltando ao assunto da vocação literária: para escrever, tem que haver o dom da escrita, tal como para o cantor é preciso o dom da voz. Todos conhecemos pessoas inteligentes na sua especialidade – medicina, arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam do seu ofício, não conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. Deus sempre é parco na concessão de dotes”.
Em março de 2003, no mesmo jornal, Rachel afirma, já no título, que “A inspiração não vem para todos”. Diz: “A noção comum que se tem a respeito do escritor é que são pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas ou do Espírito Santo, ou de um outro espírito propriamente dito – fenômeno a que se dá o nome de ‘’inspiração’. O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel… E continua: Pode ser que existam esses privilegiados – mas os que conheço são diferentes…O processo todo é penoso e dolorido…” concluindo, com brilhantismo: “Talvez com autores de imaginação rica o fenômeno se passe diferente… Aí a sensação criadora deve ser de plenitude e gratificação. Mas esses são as estrelas. A arraia miúda escrevente – ai de nós – é mesmo assim como eu disse: pena, padece e só então escreve”. Rachel mudou de cenário e sabe que seu agnosticismo, mesmo citando Deus, não será empecilho para, na dimensão em que estiver, velar pela arraia miúda que pena, padece e tenta escrever.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/11/2003.

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