MALEDICÊNCIAS E DESENTENDIMENTOS

Uma pessoa reclama das leituras erradas que fazem do que fala e de como vive. Diz que é incompreendida e que alguns, de boa ou má-fé, resolveram espalhar inverdades a seu respeito. Lamenta que não a conheçam na sua essência e façam coro a estórias, sem ouvir a sua palavra. Reclama que alguns não a conheçam como realmente é, desconheçam as atitudes que toma em situações emergenciais quando é preciso ter bom senso, comandar, discernir e ajudar o próximo.
Pois é. O comum, e mais cômodo, é as pessoas fazerem leituras erradas dos outros. Os sentimentos de empatia, simpatia e antipatia são muito próximos, limítrofes, e dependem sempre da história de vida, da essência, do olho e do ouvido do outro. Nós somos o que somos, mas os outros imaginam que somos o que pensam que somos. E aí é que residem as grandes querelas entre gente que se amou, foi colega ou amiga. Um dia, rompem.
São fatos, atitudes, e boatos que minam as relações de benquerença e amor. Chega um dia em que os arautos da maledicência são os ‘vencedores’, por plantarem a discórdia, a desunião e até a separação de pessoas que, mesmo cometendo erros, gostariam de ter alguém que lhes trouxesse alento. Falta, nestas horas, um pacificador, alguém leal às partes envolvidas, sem tomar partido. Ao contrário, sobram os que põem lenha na fogueira das fofocas, os que referendam leituras erradas, aqueles que trazem a ‘solidariedade’ não pedida, fazendo eco às tais maledicências e desentendimentos. Os maledicentes depois voltam para as suas vidas, tristes, alegres ou indiferentes por terem insuflado o rompimento de colegas, familiares, casais ou amigos.Os rompidos ficam lá, em suas solidões induzidas, questões a resolver, sem ter mais o apoio dos que lhes minaram a relação e que, via de regra, já estão atrás de outras estórias, fofocas e vítimas. Os ‘solidários’ voltam, quando muito, como Pilatos no Credo, de mãos lavadas, sem a emoção e o comprometimento da coragem para dizer: reconsiderem, reexaminem, não foi bem assim e, se foi assim, desculpem ou perdoem.
Cada um precisa encontrar a sua própria resposta, sem medo de ceder e sem ódio. E não seria perda de tempo conhecer a letra traduzida da música ´My Way´. Cada um tem o seu jeito, o seu modo de viver, reagir, amar e ser amigo. E o importante é que o nosso jeito de ser possa, apesar dos pesares, aceitar o jeito de ser do outro. E vice-versa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/12/2003.

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