Neste domingo, você escolheu, entre tantas opções, ler esta crônica. Obrigado. Vá juntando as palavras e frases e veja se elas fazem sentido para você. Uma crônica é um relato simples, uma mistura da intuição de quem escreve e a sua oportunidade de falar do cotidiano. Hoje, o mote é dizer do Natal que aí está. Um natal sem fome, pregam uns. Um natal de paz, oram outros. Um natal sem injustiças, pedem todos. Um natal de amor, enfim. Mas, poucos se dão conta de que o Natal é uma etapa, o nascimento, a délivrance, a expulsão de um feto que deixa o útero após meses de gestação e, para viver, chora.
Assim é o ensinamento deste Natal, mesmo que a nossa fé seja interesseira, a solidariedade seja falsa e amor se esfume na primeira intriga. De repente, não importa a nossa história pessoal. Estamos todos, queiramos ou não, envolvidos na aura de um tempo que há de vir. Sempre foi assim e é assim que deve ser, pois não importa o que somos, vale agora como estamos e o queremos vir a ser.
E como estamos? Estamos perplexos pela pouca preparação de vida de cada um de nós para esta festa, repetida todos os anos, como se fosse um aviso ou chamamento que, independente do que compramos ou comemos, dá um sacolejo em nossas entranhas, tornando estranhas as mesquinharias a que todos estamos sujeitos. Esta festa é uma espécie de incenso virtual inalado, a penetrar em nossa pequenez. A fumaça perpassa, simbolicamente, os nossos chacras, sentimentos, a razão e as áreas de nossos corpos e mentes. Corpos e mentes talvez afetados por males reais ou imaginários, e sai… Sai, subindo o espaço sideral e leva uma radiografia do que somos, temos e podemos nos transformar ainda.
Precisamos reescrever novos roteiros pessoais, mesmo que isso nos custe caro e as incompreensões surjam. Não é uma garfada segura que nos garante o alimento que necessitamos, mas o ofício de reescrever sempre o que precisamos e devemos, com os sinos da esperança que teimam em tocar dentro de nós, por mais descrentes e indiferentes que estejamos.
Vale o lugar comum: este é um tempo mágico, mas, paradoxalmente, temos de arremessar fora cartola, habilidades de mágico e cartas marcadas. A magia de que se fala é uma conjunção e você, despido de suas verdades e certezas, pode sair do abstrato de sua realidade atual e imprimir o sonho que nunca teve coragem de viver.
Se você chegou até aqui é porque valeu a pena. Feliz Natal.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/12/2003.

