Procurei descobrir a origem da expressão lua-de-mel e encontrei quatro versões. Todas muitas antigas, as duas primeiras meras lendas. Na antiga Germânia, Alemanha de hoje, os noivos casavam à época da lua-nova e levavam uma mistura de água e mel para beber ao luar em busca da felicidade. A segunda: no tempo em que as jovens eram capturadas, muitas vezes contra sua vontade, os raptores escondiam-nas por um mês, de uma lua-cheia a outra lua-cheia, para apaixoná-las, ou convencê-las a casar e, para isso, davam-lhes uma bebida afrodisíaca à base de mel que, segundo a lenda, surtia bom efeito. A terceira, deve-se a um costume dos romanos que untavam com mel a soleira das portas dos noivos. E a quarta, entre os povos orientais, os noivos recebiam mel e vinho e depois se retiravam, permanecendo longe do povoado por certo tempo, o equivalente a uma lua, que poderia significar uma semana ou um mês.
Não é preciso conhecer a origem da expressão vinda do latim (luna, lua e melle, mel), nem o tratado sobre as abelhas, a melissografia, para saber ser o mel tirado do néctar das flores, e guardado em favos ou alvéolos, para servir de alimento às suas larvas ou às pessoas. E também que designa, desde tempos imemoriais, as primeiras semanas seguintes ao casamento.
Anteontem foi lua cheia. Fase em que esse astro feminino está visível, claro, belo e pleno de luz. Saí de onde estava e, por momentos, fiquei só, ao relento, olhando para a distante lua, a me fazer perguntas sem encontrar respostas. Era plenilúnio. O terceiro dia de lua cheia quando ela refletia o esplendor de sua luminosidade naquela noite entre preces, risos, cânticos, choros, cumprimentos, abraços, votos, luzes, flashes, músicas, comidas e bebidas, De vez em quando uma nuvem branca, outra mais espessa, encobria a fosforescência da regente das marés e das mentes. Soprava um vento e eu absorvia o ar como fonte de energia, pois a emoção dava um sacolejo na alma fazendo o corpo responder por reflexo. Mas, como a volubilidade da própria lua, isso também passou.
Anteontem, para quem não se lembra, foi primeiro de março. Sessenta dias desde que o ano começou e, como se sabe, o ano é o pai de todos os meses e dias. Segundo um calendário-folhinha, editado em Petrópolis, era o Dia da Oração da Mulher. Sou pouco de ave-marias e pais-nossos. Mesmo assim, por mais alinhavada que fosse, brotou lá de dentro uma oração em meio a sentimentos vários. Nessa mesma folhinha, um pensamento de Madame de Staël: “quando sozinhos, vigiemos nossos pensamentos; em família, nosso gênio; em público, nossa língua”. Pois é.
Voltei a olhar a lua e ela não estava entre os astros distraída. Batia firme, bisbilhoteira, espreitava tudo, teimava em pratear as flores. Independente das cores, mostrava sua face inteira, arredondada, como a dizer que o mundo gira e nos leva de roldão, sem que o presente seja sempre a linha reta ligada ao passado e tampouco o futuro a mera e única esperança do hoje. Quis fazer mais uma pergunta e eis que uma nuvem a cobriu, por certo a esquivando de mim.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/03/2002.

