Anteontem foi o Dia Internacional da Mulher, como todos já sabem. Foram prestadas homenagens naturais e muita coisa foi dita e escrita. Nesse dia 08, por dever de ofício, acompanhei Cecília Soto, embaixadora do México no Brasil. Cecília não é diferente da maioria das mulheres da geração que nasceu nos anos 50. Órfã de mãe, estudou em colégio católico, formou-se em jornalismo, casou com um biólogo – que não era o preferido por seu pai -, teve um casal de filhos e, contestadora, ingressou na política, por conta de suas opiniões firmes nos artigos que escrevia em muitos jornais mexicanos.
Elegeu-se deputada estadual e, posteriormente, deputada federal. Fugindo dos grandes partidos de seu país, PRI e PAN, filiou-se a um pequeno, o Partido do Trabalho – uma espécie de PT deles, com coloração esquerdista – e teve a ousadia de se candidatar à presidência da República do México. Sem recursos financeiros e não dispondo do apoio da grande mídia, conseguiu uma consagradora votação, mas não foi eleita.
Voltou ao jornalismo, sendo seus artigos de opinião republicados por dezenas de jornais em vários estados mexicanos. Na última eleição presidencial criticou os candidatos em debates, programas de rádio, televisão e em seus artigos deixava claro suas opiniões sobre o que entendia ser o melhor para o seu país. Ganhou Vicente Fox, a quem criticara, derrubando a dinastia do PRI que comandou o país por mais de 70 anos, prometendo mudanças fortes na estrutura de poder.
Cecília Soto foi surpreendida por um convite que nunca imaginou receber. Jorge Castañeda, ministro das Relações Exteriores, em nome do presidente Fox, a convocava para ser a embaixadora do México no Brasil, considerado o maior posto diplomático em toda a América Latina. Pensou e aceitou com o objetivo de aproximar os dois países tão parecidos, mas ainda distantes em relações de negócios.
Hoje, com a desenvoltura de uma diplomata de carreira, Cecília Soto trafega em meio a dirigentes de organismos internacionais, ministros e chefes de estado. Em Fortaleza, para a assembleia anual dos governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento, conseguiu conciliar a sua agenda oficial com contatos com a imprensa, da qual nunca se desligou, e passar mensagens positivas em reunião com mulheres das mais diversas profissões. Uma jovem senhora acercou-se dela e perguntou qual o segredo de tanta energia. Ela não teve dúvida em responder em meio ao riso que a caracteriza: fazer cada coisa no tempo devido, com amor e acreditar que o trabalho é uma forma de mostrar a cada mulher o seu valor.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/03/2002.

