Estávamos, os mesmos de sempre, almoçando na sexta-feira passada, quando o telefone tocou e fomos informados da morte de Tancredo Carvalho. A conta já havia sido pedida e não existia mais ambiente para conversa. Faltava ânimo, sobravam silêncio e tristeza em homens que já estão aprendendo a perder amigos. Não se disse mais palavra. Cada um saiu à sua maneira, pois, apesar da gravidade da doença, ainda contávamos com a esperança.
Tancredo era um velho amigo desde os tempos de juventude que se tornou jornalista por seus próprios méritos. Ainda adolescente fez jornalismo esportivo. Adulto, abraçou o jornalismo político com fé e descortino. Colunista, passou a editor político consagrado, transmudando-se em editor chefe, dando conta do recado, sempre com profissionalismo, mas com a afabilidade e a bonomia que o caracterizavam.
Convidado por César Cals, foi seu porta-voz no Governo do Ceará, permanecendo amigo de seus amigos, mas sabendo sempre distinguir o público, do privado. Ao ser escolhido Ministro de Minas e Energia, César Cals o convidou, mais uma vez, para assessorá-lo. Com simplicidade, dignificou o seu cargo, sendo sempre o conselheiro arguto, discreto e leal, acompanhando-o pelo mundo afora, cuidando com zelo da imagem de um ministro que tinha contra si o fato de ser nordestino, em meio a um mar de interesses.
Voltando ao jornalismo, reviu-se editor-chefe, até que foi chamado a implantar e dirigir, com equilíbrio, uma emissora de televisão onde fez brilhar o seu espírito alegre e vivaz criando tipos e personagens que hoje fazem escola. Ao mesmo tempo em que cuidava de sua atividade profissional era sempre o eterno namorado de sua mulher e cuidadoso pai de filhos que estão aí adultos e bem-criados, tendo como exemplo a parcimônia de um homem honrado que conhecia e vivia dentro de seus limites.
Há anos, muitos anos, éramos amigos de convivência semanal integrando um grande grupo, além de um regular almoço às sextas-feiras.
Pois foi justo numa sexta-feira que Tancredo nos deu uma lição, expirando na hora em que acabávamos de almoçar, como se nos mostrasse, sem alardes, que seu tempo estava cumprido e alertava para a nossa desimportância.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/05/2002.

