Era a primeira vez em que essas três mulheres estavam reunidas. E foi à noite, na mesa de um bar, em meio à rua, ouvindo os passantes e até os ruídos de um camelô imitando gatos num saco. Somavam anos, enganos e desenganos, mas se mostravam educadas e gentis, embora, como já disse alguém: mulher é sempre muito severa ao julgar uma semelhante.
Sem que combinassem, sorviam bebidas diferentes. Uma, a mais velha, a observadora, ficava com o gosto amargo do Campari, como se estivesse sentada em uma pizza italiana. A outra, a risonha, deliciava-se com o calor da tequila transformada em Marguerita numa imaginária bodega mexicana. A terceira, a sonhadora, foi buscar nas terras altas da Escócia o seu néctar e, como se num pub londrino estivesse, bebia goles do seu uísque.
O Campari poderia ser apenas uma bebida, mas também retratar uma trajetória, mostrando como nada havia sido doce e ameno. O amargor da bebida parecia ser a confirmação da luta já tão larga em tempo e que ainda não quedara suave, pois ora navegava em meio a procelas, sem que fosse barcaça ou timoneira.
A Marguerita talvez simbolizasse a sexualidade forte, aguçada pelo sal da borda da taça. Só que não se vive na borda e aí o agave da tequila mostrava a crueza da aguardente, sem refino e sem sofismas.
O Uísque é uma bebida longa que vai entorpecendo as dores, aguçando os sentidos e tentando repor a alma em seu devido canto, mesmo que o pranto já não brote pelos olhos, mas umedeça o coração.
E a conversou tomou o rumo dos descompromissos. A mais velha usou de sua argúcia para dizer verdades, misturando verve com a crueza da realidade, sem perder o senso de humor que se fazia vário.
A da marguerita apenas intervia, como uma moderadora de diálogos, a espicaçar, fustigar e plantar revelações na boca de cada interlocutora.
A terceira, despia-se de suas mágoas e mostrava a inquietude guardada com cautela, mas transbordante em gestos e amuos.
A carne crua do salmão era o único elo entre elas. Um elo tenro que, pouco a pouco, desaparecia entre pequenas e literais garfadas, só acompanhadas do pão torrado que já perdera suas características e propriedades. Mas, era noite leve e tudo se dizia sem medo, sem reparar que, em mesa contígua, pessoas estranhas a tudo ouvissem. Importava não, eram as dores do mundo que as tornavam semelhantes, embora, quem sabe, pouco tivessem em comum.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/05/2002.

