VINTE ANOS SEM ELE

Ontem fez 20 anos. Fortaleza amanheceu estarrecida com o acidente do avião da Vasp na serra de Pacatuba. Naquela oportunidade, publiquei, neste mesmo DN, o artigo que ora tomo a liberdade de reproduzir.
“É difícil entender certas coisas. A morte, por exemplo. É cruel admitir a nossa dimensão diante dos fatos. Quem não está abalado e, guardadas as proporções, um pouco morto com o desastre de ontem?
Senti, com a minha incapacidade de mudar os fatos consumados o drama pungente de tantas famílias hoje esfaceladas. É triste reconhecer que a mão do destino atingiu, de uma só vez, tantas pessoas que, na sua maioria, tinham o único objetivo de trabalhar e produzir. Desse binômio, trabalho e produção, fizeram sua crença e sobre ele montaram suas empresas, tais quais templos contra o subdesenvolvimento.
Imagino a alegria dos que voltavam da Fenit, alguns pela primeira vez. Extasiados pelo sucesso do que produziram, jamais poderiam admitir que seus compromissos não iriam tão longe. Desses jovens empresários, forjados na camaradagem e na disputa que, ao mesmo tempo, os unia e separava, fica a lembrança de que, de forma espontânea, estavam dando uma contribuição valiosa e decisiva para o futuro do Ceará.
Cada um deles, na dimensão de seu universo, estava se sentindo um Edson Queiroz e o destino trouxe exatamente esse mesmo Edson Queiroz para paraninfá-los em sua última viagem.
Sobre Edson Queiroz não se pode falar sem passionalidade, sem que se invoque tudo o que ele fez. O que dizer de um vitorioso? O que dizer de um obstinado? O que dizer de um líder? O que dizer de um fanático do progresso? O que dizer de um idealista prático? Se é que se pode ser idealista e prático ao mesmo tempo.
De nossa parte, fica a lembrança de um homem quase sisudo, com risos largos quando descontraído, um homem nervoso como todos os que têm uma dimensão maior do universo e um trabalho com 10.000 companheiros que o tinham como comandante.
O engraçado ou paradoxal é que ele morreu como viveu: em um avião de classe econômica, aproveitando a noite para ter mais disponibilidade de tempo para o trabalho, voltando para a sua terra querida, em alta velocidade e, mesmo sem o querer, como a estrela maior desse acontecimento”.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2002.

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