O SER, O TER E O PARECER

Contardo Calligaris é um psicanalista italiano que já morou no Brasil e hoje vive entre os Estados Unidos, a Europa e o nosso país. Leitor de almas e escritor sofisticado, comparece às quintas-feiras na Folha de São Paulo. Na semana passada abordou a “crise do mercado ou a crise do sujeito?”, uma crônica-ensaio que me levou a utilizar o finito espaço-tempo usado para devaneios em direção a caminhos sem saber exatamente as saídas. Daí, por exemplo, ter questionado três aspectos da vida: o ser, o ter e o parecer.
O ser é a base. É onde ficam o país, o estado, a cidade, o bairro, a casa em que nasceu, o tipo de família que lhe trouxe ao mundo, com raça, origem e categoria social e formou a sua educação, seja doméstica, formal pela escola, professores e colegas, informal ou social e no que o espelho e a sua consciência revelam e se aceita com ou sem questionamentos.
O ter é aquilo que se agregou a você, sejam bens materiais ou a bagagens cultural, intelectual ou científica desenvolvidas, a partir dos valores que acredita positivos para a sua existência. O ter é o que você não tinha e acredita possuir, como se seu fosse ou seu é, sendo.
O problema é que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Algumas pessoas querem parecer o que não são e viver o que não têm. É o mundo da aparência, do supérfluo em que uma camisa ou um vestido, por exemplo, é aceita não por sua qualidade intrínseca, mas por ostentar uma marca de alta significação para a imagem de quem usa. Um relógio, dando outro exemplo, deveria servir apenas para ler as horas, mas pode definir uma posição social de quem, diferencialmente, ostenta uma marca famosa. Falo em objetos para não trafegar na senda perigosa da essência, pois aí o terreno é movediço.
A sociedade e, por mais que não queiramos estamos nela envolvidos, cobra o ser, o ter e o parecer. O parecer é o reflexo, a imagem que os outros têm de nós, a partir de juízos de valor falsos ou verdadeiros. É aquilo que pode ser fabricado com “marketing pessoal “e o sair de casa, para mostrar-se ou ser visto, compensa o vazio de não poder ficar consigo mesmo e gostar disso. Algumas pessoas se acreditam ser o que os outros pensam ou dizem delas. Essas pessoas, certamente, ficam à cata do que se chama de validação. A validação é acreditar no que o outro diz para admitir-se ser aquilo. Não pesa, para o validado, a referência própria, aquilo que a sua essência profunda diz, mas o que lhe é soprado ou gritado em seu ouvido ou escrito a seu respeito.
Esse eterno questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa, talvez necessariamente, pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar e ver a autoestima a partir da própria consciência. Mas, descubro ter começado um assunto que não cabe em crônica. Bem apropriado seria em ensaio ou tese para os quais, infelizmente, faltam-me engenho, densidade e tempo. Como disse Chamfort: “há tolices bem vestidas como há tolos bem vestidos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/08/2002.

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