Um dia destes, fui instado a responder o que era ser empreendedor. A resposta poderá, quem sabe, ser útil a jovens, única razão pela qual a repasso tal qual respondi.
Nasci e cresci em Fortaleza. A cidade estava evoluindo com energia e sempre pensei em crescer com ela, pois havia muito a fazer. Foi o que tentei, desde cedo. Cursei Direito e, ao mesmo tempo, integrei a turma pioneira da Escola de Administração do Ceará, fiz política estudantil e tive o privilégio de conhecer Edson Queiroz, empresário cearense precocemente morto em desastre aéreo, a quem ouvia. Isso me fez procurar ser curioso, instigante, trabalhador e saudável. Quis ser e, pouco a pouco, tornei-me o que se chama hoje de empreendedor.
Empreendedor é quem identifica uma oportunidade e, mesmo que temeroso, enfrenta a luta e atinge o objetivo. Minha primeira experiência foi, ainda estudante, comandar uma pesquisa com 300 homens no campo. Em seguida, descobri que pouca gente trabalhava com planejamento e o BNH havia surgido. Era o nicho. Depois, concluí: se posso planejar para os outros, por que não planejar e fazer para mim? Descobri que a melhor maneira seria estudando sempre, a maioria das vezes por mera curiosidade e de forma casuística. Ao mesmo tempo: viajava, lia muito, assistia a todo tipo de palestra, feira, seminário, congresso e cursos e farejava oportunidades. Cuidava disso com muito trabalho, determinação e objetividade.
Nunca me empolguei com incentivos fiscais e deles nunca me utilizei. Sabia desde cedo que credibilidade só se consegue comprando e pagando em dia, nunca devendo a bancos, tentando fazer as coisas certas ou corrigindo os erros, recrutando gente jovem e potencialmente capaz para ajudar a conduzir o barco do trabalho que, mesmo sem se desejar, pega mares revoltos.
Sou um mutante, pois o novo me atrai e a experiência tenta regular o meu passo. Procuro administrar os medos, agir com cautela, mas com decisão. Parto da certeza de que a mudança é uma constante. O que me obriga, reafirmo, a ser mutante e tentar superar as dificuldades que são muitas e imprevisíveis. Procuro ajustar-me às intempéries, a continuar com liquidez, renovando, sempre, pois as nuvens de incertezas brasileira e mundial são visíveis, mas parto da convicção de que descobriremos saídas. Temos que lutar por isso. Todos os meses, e não necessariamente em outubro, somente.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/10/2002.

